Omar Khayyam desafiou as leis islâmicas para celebrar o vinho e a vida
“Alá vos prometeu
vinho no Paraíso, por que então o vinho deveria ser considerado um vício
na Terra?”, perguntava Omar Khayyam. Assim como em outro quarteto aponta: “Já que nem a verdade
nem a certeza estão em nossas mãos, não desperdicemos nossas vidas na
dúvida de uma terra prometida, não recusemos uma taça de vinho, pois,
sóbrios ou bêbados, na ignorância ficamos”. Para o poeta, os prazeres do vinho se confundem ainda com os do amor e
ele questiona novamente: “Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.
Eis o meu prazer e a minha amargura, o meu paraíso e o meu inferno. Mas
quem sabe o que é céu e o que é inferno?"
ARNALDO GRIZZO
Revista Adega (Brasil)
“Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes, mas ninguém se
deleita sempre em suas páginas. No copo de vinho, está gravado um texto
de adorável sabedoria que a boca lê a cada vez com mais delícia”
(Quadra atribuída ao Rubaiyat de Omar Khayyam, traduzida por Alfredo Braga)
Maomé viveu entre 570 e 632 d.C. A religião que criou ganhou o
coração dos árabes e se tornou uma das maiores do mundo. Assim como
todas as religiões, sua difusão passou por processos conturbados, levou a
guerras, mas, enfim, estabeleceu-se entre seus seguidores,
especialmente no Oriente Médio.
No século XI, já muito tempo depois da expansão muçulmana que
conquistou todo o norte da África e boa parte do sul da Europa, o mundo
árabe continuava em polvorosa. As tribos mais poderosas ainda guerreavam
contra o Império Bizantino, mas também precisavam se preocupar com
outros povos islâmicos que viviam batalhando entre si. O fim do século
foi marcado pela convocação da Primeira Cruzada e, logo em seguida, pelo
início da guerra entre Bizâncio e os otomanos, que, tempos depois,
levaria à queda definitiva do império.
Foi nesse período conturbado que viveu um dos mais célebres
matemáticos e astrônomos, além de poeta, de toda a história do
islamismo. Estima-se que Omar Khayyam nasceu em 18 de maio de 1048 na
cidade persa de Nishapur, no atual Irã – uma cidade importante, na Rota
da Seda, uma das maiores do mundo naquela época, rivalizando com o Cairo
e Bagdá. Acredita-se que Ghiyath al-Din Abu’l-Fath Umar Ibn Ibrahim
Al-Nisaburi al-Khayyami, seu nome completo, era filho de fabricantes de
tendas, pois Khayyam é uma derivação da palavra árabe para essa função.

Além de poesia, Khayyam escreveu importantes tratados de matemática
No entanto, o jovem não seguiu o ofício dos pais e foi enviado para
estudar em Samarcanda (no atual Uzbequistão), por volta de 1070. Antes
mesmo dos 25 anos, Khayyam já se mostrava um exímio pensador, tendo
escrito seu “Tratado sobre a Demonstração de Problemas de Álgebra”,
considerado um dos mais importantes tratados anteriores à Era Moderna,
além de outras tantas obras relacionadas à matemática e astronomia.
Turcos seldjúcidas e o calendário
Na época, a primeira dinastia unificada turca, chamada seldjúcida,
estava em formação. Toghril Beg, fundador da dinastia, ingressou na
região de Khorasan (onde ficava Nishapur e Samarcanda), e fez da cidade
de Isfahan sua capital. Em 1073, seu neto, Malik-Shah, comandava o local
e convidou o sábio Khayyam para gerir seu observatório estrelar. Por 18
anos, o matemático persa ficou a cargo do estudo astronômico do reinado
seldjúcida. Nesse tempo, o sultão pediu a seus conselheiros e
cientistas que reformassem o calendário, buscando um mais preciso.
Khayyam foi um dos oito homens empregados nessa tarefa que criou o
calendário Jalali (considerado mais assertivo do que o gregoriano),
adotado pelos persas em 1079.
Até 1092, quando Malik-Shah morreu (acredita-se que assassinado no
caminho entre Bagdá e Isfahan), Khayyam pôde desenvolver seus estudos em
matemática e astronomia em um dos raros períodos de tranquilidade
política na região. Ele estudou profundamente os postulados de Euclides,
dito “pai da geometria”, e criou formas de resolver equações cúbicas,
por exemplo. Sua produção foi tamanha que chegou-se até a acreditar que
ele havia demonstrado uma teoria heliocêntrica (na qual a Terra gira em
torno do Sol) séculos antes de Galileu.
Com a morte do sultão e mesmo antes, com a conquista da Anatólia (que
compreende boa parte do território da Turquia de hoje) por parte dos
seldjúcidas, a região viu sucederem diversas batalhas. Aliás, um apelo
do imperador bizantino para que o papado reunisse tropas para combater
os turcos na Anatólia foi uma das desculpas para se formar a Primeira
Cruzada, em 1095, convocada pelo papa Urbano II. Khayyam viveria ainda
até 4 de dezembro de 1131, quando morreu em sua cidade natal, Nishapur.
Filosofia e vinho
Sabe-se relativamente pouco da vida de Omar Khayyam. Além de seus
tratados matemáticos, ele também escreveu obras de cunho filosófico,
apesar de ter estudado e ensinado até o fim da vida os pensamentos do
mais conhecido filósofo do islã, Avicena. A despeito de suas teorias
matemáticas, sua fama mundial só ocorreria séculos depois de sua morte,
com a tradução de seus Rubaiyat, quartetos rimados, pelo poeta inglês
Edward Fitzgerald, em 1859.
Não se sabe ao certo quantos quartetos Khayyam escreveu. Alguns
acreditam que foram mais de 600, mas a autoria de boa parte deles é
incerta, já que essa forma poética de escrever em quartetos (chamada de
rubaiyat) era bastante comum. Ainda assim, é através desses pequenos
poemas que se consegue entender um pouco da vida e da alma desse persa
que, muitas vezes, desafiou a lei muçulmana ao cantar as benesses do
vinho, bebida proibida pelos ensinamentos do islã. Neste quarteto,
percebe-se o seu apreço pelo vinho: “Nunca procurei saber onde encontrar
o manto da mentira e do ardil, mas sempre andei à procura dos melhores
vinhos”.
Além do vinho, Khayyam celebra a vida em seus poemas. Ele percebe a
efemeridade dessa passagem do homem sobre a Terra e não se furta em
dizer que devemos aproveitar os momentos, numa filosofia de carpe diem,
como se observa nesse trecho: “Busca a felicidade agora, não sabes de
amanhã. Apanha um grande copo cheio de vinho, senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.”
“Nunca, por um momento sequer, deixe sua taça sem uso! O vinho mantém entretidos o coração, a fé e também a razão”
Há inúmeros outros quartetos com a mesma tônica e que mostram o vinho
como um fiel companheiro: “Só de nome conhecemos a felicidade. O nosso
melhor amigo é o vinho; afaga a única que te é fiel: a ânfora, cheia do
sangue das vinhas”. E ainda: “Bebe vinho, ele te devolverá a mocidade, a
divina estação das rosas, da vida eterna, dos amigos sinceros. Bebe, e
desfruta o instante fugidio que é a tua vida”.
Em diversos trechos, a lei de Maomé também é questionada: “Quando me
falam das delícias que na outra vida os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas; o som dos tambores só é belo ao
longe”. Em um ponto, chega ao cúmulo de perguntar: “Alá vos prometeu
vinho no Paraíso, por que então o vinho deveria ser considerado um vício
na Terra?” Assim como em outro quarteto aponta: “Já que nem a verdade
nem a certeza estão em nossas mãos, não desperdicemos nossas vidas na
dúvida de uma terra prometida, não recusemos uma taça de vinho, pois,
sóbrios ou bêbados, na ignorância ficamos”.
Para o poeta, os prazeres do vinho se confundem ainda com os do amor e
ele questiona novamente: “Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.
Eis o meu prazer e a minha amargura, o meu paraíso e o meu inferno. Mas
quem sabe o que é céu e o que é inferno?” O vinho e a mulher são suas
desculpas: “Não vamos falar agora, dai-me vinho. Nesta noite a tua boca é
a mais linda rosa, e me basta. Dai-me vinho, e que seja vermelho como
os teus lábios; o meu remorso será leve como os teus cabelos”. E também
seu prazer: “Não aprendeste nada com os sábios, mas o roçar dos lábios
de uma mulher em teu peito pode te revelar a felicidade. Tens os dias
contados. Toma vinho.”
Khayyam, por fim, canta as benesses do vinho: “O vinho dá-te o calor
que não tens; suaviza o jugo do passado e te alivia das brumas do
futuro; inunda-te de luz e te liberta desta prisão”. E declara com a
sabedoria que os anos lhe deram: “Nunca, por um momento sequer, deixe
sua taça sem uso! O vinho mantém entretidos o coração, a fé e também a
razão”.
Comentários
Enviar um comentário