Quinta do Relógio: um passeio pelo romântico e o oriental
Quinta do Relógio: um passeio pelo romântico e o oriental
Por Elsa Severino / revistajardins.pt

Palácio do estilo “árabe” – Quinta do Relógio
História e evolução da propriedade
Na Vila de Sintra, na estrada para Colares e fronteiro à Quinta da Regaleira, surge esta propriedade de 2 hectares, pertencente à família Berglund desde 1998.A designação de “Quinta do Relógio” advém da existência de uma torre com “numerosos sinos que davam as horas ao som de vários minuetes”, torre ainda representada em litografias de 1829, sendo posteriormente demolida. Há escassa documentação anterior a 1800, mas ainda assim conhecem-se vários proprietários; no reinado de D. Pedro V, por volta de 1835 a quinta é comprada por Manuel Pinto da Fonseca, que fez fortuna no comércio de escravos. Por este facto, conta-se que o rei, defensor “acérrimo” da abolição da escravatura, nunca aqui entrou e referia que o barulho das águas do jardim, era tão somente o sangue dos negros flagelados pelo “Monte Cristo”, alcunha do proprietário em virtude da sua atribulada vida.
Curiosamente em maio de 1886 , e ao invés do tio, os futuros reis de Portugal, D. Carlos de Bragança e D. Maria Amélia de Orléans, passaram aqui a sua lua-de-mel. A Quinta,“enobrecida, por tradições de história e poesia”, foi classificada como imóvel de interesse público e está incluído na paisagem cultural e natural de Sintra, integrando a lista de Património Mundial.

Castelo dos Mouros
Arquitetura
Manuel Pinto da Fonseca encomendou a sua residência, estilo “neo-árabe”, ao arquiteto António Manuel da Fonseca Júnior, filho do célebre professor de pintura histórica na Academia de Belas-Artes de Lisboa.Segundo Anne de Stoop, “(…) Os românticos à procura das suas origens e completamente impregnados de orientalismo não podiam achar melhor local que Sintra, ainda repleto de lendas e recordações dos mouros. O Palácio da Pena em 1839, o de Monserrate em 1858 e depois a Quinta do Relógio, são as primeiras construções deste novo estilo arabizante, que se estenderá em seguida a Lisboa e ao Porto”.

Caminhos na quinta, com bancos laterais adossados ao muro
Jardins e vegetação
A Quinta possui um jardim romântico, na tradição da Pena e de Monserrate, contrariando “a geometria neoclássica”. Repleto de vegetação luxuriante, pleno de exotismo, o jardim estende-se pelas encostas, ao sabor do relevo, pleno de surpresas em cada recanto; a água repousa em lagos, tanques e corre nas bicas e valetas ao longo dos caminhos de saibro, junto aos muros de granito.
Fetos e fúcsias

Lago e vegetação luxuriante com palmeiras, araucárias, fetos, cameleiras
Arquitetura da água
A água corre pela quinta e no seu percurso é retida em lagos, tanques, grutas, corre em cascatas e bicas acompanha-nos nas valetas dos caminhos, que desembocam em riachos e, outra vez, surge um novo circuito das cascatas e grutas, num infindável movimento aquático.Destacamos a “Gruta com Embrechados”, junto à actual galeria de arte “Sintra Magic”; esta singular fonte, data de finais do séc. XVIII, e além da característica decoração com os pedaços de loiça partida, das conchas transformadas em taças, tem representados em baixo relevo o “Convento de Mafra, a primitiva Torre do Relógio, o Paço de Sintra e o antigo Mosteiro da Pena”, segundo o texto de Maria João Martinho, que refere também que estes embrechados são anteriores ao Palácio da Pena.

Tanque-reservatório de água, a ladear o caminho. Os fetos, musgos e outras plantas das zonas húmidas cobrem os muros

Tanque com gárgula antiga e fonte dos Embrechados ao fundo
Para visitar: entra-se junto à Quinta da Regaleira, pelo centro de exposições “Sintra Magic”. Para mais informações aqui.
Fotos: Elsa Severino
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