Os Templários e o Islão: lição de história ecuménica
Os Templários e o Islão: Lição de História Ecuménica
VÍTOR MANUEL ADRIÂO
Uma
das acusações de maior peso no processo contra os Templários, sem
dúvida, terá sido a das sua relações próximas com o Islão, que mais que
heresia religiosa era politicamente um imperdoável pecado capital para o
imperialismo de Roma. Por isto, mais que as controversas acusações de
bruxaria e sodomia, foi esta acusação claramente política quem mais
pesou na abolição assassina da Ordem do Templo. O papado e os reis, seus
vassalos, não podiam permitir que houvesse intimidades com o agareno,
alegando o risco desse atraiçoar quaisquer tratos e contratos com os
cristãos e vir a perder-se os territórios e suas riquezas duramente
conquistados na Terra Santa, e mesmo na Europa Ocidental. De maneira
que, receoso e só tendo a calúnia para se defender e sobretudo ofender, o
eclesiástico romano considerava inadmissível em toda a linha que um bom
cristão pudesse conviver com um perro infiel.
A
fonte original dessa acusação dos Templários terem se tornado mais
islâmicos que cristãos, assim atraiçoando e até renegando a Fé católica
que os legitimava e o seu chefe supremo, o Papa, foi Frederico II
Hohenstaufen (1194-1250). Ele fora educado em sua menor idade pelos
Templários (que repetiram a experiência com Jaime I de Aragão e Dinis I
de Portugal), por cujos documentos sobreviventes desse tempo fica
demonstrado que o pretendiam utilizar para fins de natureza sinárquica.
Porém, já desde 1210 o rei e futuro imperador encaminhava por sua conta e
risco esse ideal, mal compreendido e pior realizado, através de uma
política expansionista por força das armas, o que lhe acarretou a
inimizade do Templo e a hostilidade do Papado – Gregório IX excomungou-o
de 1227 a 1229, e Inocêncio IV fez o mesmo em 1245.
Em
1229 Frederico II coroou-se rei de Jerusalém, após ter negociado com os
muçulmanos sunitas do Egipto a rendição e entrega incondicional da
Cidade Santa, em prejuízo do espírito messiânico de conquista que havia
inspirado as anteriores expedições de cruzados e completamente à margem
da legalidade pontifícia. Nunca obteve o reconhecimento como rei de
Jerusalém por parte dos Templários e nem tampouco do sultão do Egipto,
que aqueles deverão ter auxiliado secretamente a surpreender e a vencer
no campo de batalha o autonomeado rei de Jerusalém, na realidade, um
rei-fantoche possuído do título mas não do reconhecimento oficial tanto
do Papado como do Califado. Ficou-lhe o ódio e o desejo de vingança, a
qual viria a consumar pela acusação da Ordem do Templo conspirar com o
Islão, na Terra Santa, contra a Cristandade. Todos sabiam que Frederico
II sempre fora péssimo cristão e excelente oportunista político, mas
Filipe, o Belo, e Clemente V necessitavam de mais esse conspirador de
peso, mesmo que o detestassem pessoalmente, no seu processo contra o
Templo[1].

Frederico II Hohenstaufen cerca de 1240. Biblioteca Vaticana
Durante
o julgamento em Paris dos cavaleiros da Ordem Templária, foi invocado
contra eles o episódio daquele guerreiro cristão franco recém-chegado a
Jerusalém que os Templários repreenderam por ter molestado um árabe
durante a sua oração, episódio que fora narrado em primeira mão pelo
próprio molestado, o príncipe Usama ibn Munqidh, embaixador do sultão de
Damasco cerca de 1175, considerado um amigo do Templo:
“Quando
estava em Jerusalém – escreveu Usama – costumava ir à mesquita Al-Aqsa,
a Cúpula da Rochedo, ao lado da qual há um pequeno oratório que os
francos converteram em igreja. Sempre que entrava nela, que estava em
poder dos Templários que eram meus amigos, eles colocavam o pequeno
oratório à minha disposição, para que eu pudesse rezar lá as minhas
orações. Um dia, tinha entrado e dito o Allahu akkbar e
preparava-me para me levantar quando um franco se atirou a mim pelas
costas, levantou-me e virou-me para que eu ficasse voltado para oriente.
‘É assim que se reza!’, disse. Alguns Templários intervieram
imediatamente, agarraram o homem e afastaram-no do meu caminho. Mas
assim que o deixaram ele agarrou-me de novo, obrigou-me a virar para o
oriente e repetiu que era assim que se rezava. De novo os Templários
intervieram e levaram-no. Pediram-me desculpa e explicaram: ‘É um
estrangeiro que só chegou hoje e nunca viu ninguém orar para qualquer
outra direcção que não fosse para oriente’. ‘Terminei as minhas preces’,
respondi e saí estupefacto com o fanático.”
A
acusação de amizades e até filiação encapotada ao Islão é ainda mais
apertada quando se aponta a indesmentível simpatia dos Templários pelo
Xiismo ismaelita, mormente as suas relações com esses “assassinos”
fumadores inveterados de “haxixe” (invenção oitocentista que pegou
universalmente, diga-se de passagem), ou seja, aqueles da Ordem dos Assacis (no singular árabe, assa, “guardião”) ou Ashashins (no plural árabe, hashîshiyya,
“ervanários”, ordinariamente “assassinos”; e “ervanários” certamente
com o duplo sentido do que seriam: “médicos” e “vegetarianos”), a sua
pressuposta “irmã gémea”, fundada no Cairo em 1090 e terminada em 1271.
Além
de darem a entender nada saber de política diplomática ultramarina, os
inquisidores ainda percebiam menos do sentido último e supremo das
relações do Templo com o Islão. O tempo de duração dos Assacis e a sua
actuação foram praticamente idênticas às dos Templários, havendo mesmo
uma complementaridade entre ambos e que só se pode explicar à luz da
Tradição Primordial representada por ambas as Milícias, como que
demandando uma maior aproximação, e mesmo fusão, socioespiritual do
Oriente com o Ocidente à luz de um mesmo Espírito Salvífico, apesar de
sob nomes diversos. Ademais, tanto os Templários como os Assacis
proclamavam-se abertamente Guardiões da Terra Santa e Assassinos da Heresia. Eis duas intenções aproximativas de ambos e, principalmente, explicativas do sentido real do apodo depreciativo dos segundos.
![Imagem 28[1]](https://lusophia.files.wordpress.com/2015/11/imagem-281.jpg?w=500)
Oriunda do Xiismo, a Ordem dos Assacis
constituía-se o ramo esotérico, sufítico, e militar do Ismaelismo.
Derivava do movimento dos Nizâristas e mantinha-se fiel à autoridade do
primogénito do califa fatimida Al Mustansis, executado em Alexandria no
século XI (1094). Fugidos do Egipto, os Assacis estabeleceram-se no
Norte do Irão, no seio do maciço montanhoso de Elbrouz, na fortaleza de
Alamût, e depois na fortaleza de Masyaf, perto de Hamah, na Síria,
estruturados como sociedade fechada, secreta, sob a autoridade de um
Mestre incontestado, o Sidna, “Senhor”, ou Cheikh el Djebel (ou Djabal, o “Todo-Poderoso”, prerrogativa do Arcanjo Mikael, Miqaïl ou Miguel) que era Hassan Al Sabah, o “Velho da Montanha” (Alborj, a “Montanha Primordial”, assim se associando ao Monte Meru
dos hindustânicos), tendo travado uma luta sem quartel contra o
Sunismo, seu inimigo mortal, utilizando sistematicamente o terror
político e militar que lhe granjeou a má fama perdurando até hoje[2].
É facto provado que a Ordem do Templo
sempre privilegiou mais o Xiismo, mais místico e aberto, que o Sunismo.
Como diz Bernard Marillier[3],
“uma coisa é certa: a Ordem dos Assacis desenvolve-se à medida das
conquistas cristãs e da implementação das fortalezas templárias, o que
não foi obra do acaso, mas devia corresponder a um movimento paralelo,
de ordem material e sobretudo espiritual ou supra-espiritual tendo por
objectivo a realização de um “grande desejo” ligado a dados precisos
provenientes da Tradição Primordial. De resto, é provável que o Templo
tenha compreendido toda a vantagem que poderia tirar de uma aliança com
os Assacis, primeiro contra os príncipes cristãos que se opunham ao seu
poder no Oriente, donde o assassinato pelos Assacis do filho de Raymond
de Tripoli, hostil ao Templo, aliança comum contra o príncipe de
Antioquia – pela qual os Templários foram censurados pelo Papa Gregório
IX em 1236 –, a seguir, na luta contra o seu inimigo comum, o Sunismo,
por razões certamente diferentes: razões doutrinais para os Assacis,
razões políticas e diplomáticas para o Templo: tratava-se, para este, de
enfraquecer a corrente maioritária do Islão, logo, de afastar quanto
possível a ameaça sobre o Oriente cristão mas também sob o seu próprio
projecto de domínio da Terra Santa. […] Estas relações eram reforçadas
pelos múltiplos laços que o Templo tecia pela via das relações
económicas e financeiras e, como já vimos, por uma intensa actividade
diplomática visando criar um espaço político e religioso cristão
coerente, ou seja, um vasto conjunto unificado supra-espiritual.
Estabeleceu numerosos tratados e acordos com os poderes muçulmanos e foi
muitas vezes solicitado por estes como garante dos tratados assinados
entre eles e os cristãos porque, como escrevia o cronista Aboul Faradj,
os Templários eram “considerados como homens puros, incapazes de faltar à
sua palavra”. Recordemos que foi graças aos conselhos do Mestre Robert
de Craon e graças à sua amizade com o sultão de Damasco que o rei de
Jerusalém, Foulques IV d’Anjou, conseguiu estabelecer uma aliança contra
o sultão de Bagdad. […] Sublinhemos enfim outras estranhas semelhanças
entre as duas Ordens: um mesmo período de duração no tempo, uma prática
iniciática quase idêntica – onde só os nomes mudam, não o fundo – devido
ao facto de que ambas se ligam a uma tradição implicando uma iniciação
cavaleiresca da mesma natureza e a unicidade do sagrado que, para além
das suas manifestações contingentes, permanece análogo no tempo e no
espaço, e enfim uma destruição súbita perpetrada pelos poderes
instituídos, os Mongóis e o sultão do Egipto Baibar para os Assacis em
1271, o rei de França Filipe IV o Belo e o Papa Clemente V para os
Templários em 1312″.

Castelo e cidade de Alamût, Irão, centro principal da Ordem dos Assacis
Aparte as manobras políticas e militares
do tempo, a verdade é que os Assacis em tempo algum foram sinónimo de
“assassinos” e “fumadores de haxixe”. Esses epítetos caluniadores não
vão além do século XIX, como já disse, e têm origem que poderia ser
cómica se não pegasse a mentira dramática. Com grande propriedade,
escreveu Chema Ferrer Cuñat[4]:
“Após a morte prematura do Iman Ismael –
filho de Abraão através de Agar, serva de sua esposa Sara –, o seu irmão
ficou com o poder em detrimento do filho de Ismael. Uma parte
importante do Xiismo defendeu a legitimidade deste filho e assim nasceu o
Ismaelismo. O movimento teve que manter-se na clandestinidade,
sobretudo pela concepção esotérica e heterodoxa que mantinham na prática
religiosa. Os ismaelitas defendem a existência de um sentido esotérico
do Corão, que só se comunica àqueles que pertencem aos graus superiores
da iniciação. Daí que também sejam conhecidos como batiniyya (de batin, “esotérico”) e talimiyya (de talim, “doutrina”).
“No ano 969 os ismaelitas alcançam o
poder através da dinastia fatimida, que governará no Egipto durante mais
de dois séculos. Isto colocará um grave problema, já que o delineado
básico da sua religião não estava concebido para converter-se num culto
aberto, oficial e exotérico (externo), e ainda menos para que fosse
susceptível de chegar a todas as camadas da sociedade muçulmana.
“Esta corrente ismaelita sofrerá ainda
mais uma cisão, no ano 1094, pouco antes da chegada dos cruzados ao
Oriente, quando os sucessores do califa fatimida Al Mustansis (c.
1038-1094) se enfrentavam pelo poder. Surgem assim os Nizâristas,
partidários de Nizâr, um dos filhos do califa fatimida. Muitos dos
seguidores do Iman Nizâr acharam refúgio na fortaleza de Alamût, nas
montanhas do Irão. Deste grupo de Nizâristas se constituiu a seita
conhecida no Ocidente como a dos Assassinos.
“O fundador da seita dos Assassinos, em 1090, foi o carismático Hassan Al Sabah, conhecido como o “Velho da Montanha”.
“A chamada “seita dos Hashshashin”
ou Assassinos derivou do Ismaelismo (Xiismo Septimano) e das doutrinas
dos Sufis, consideradas desviadas e heréticas pelo Islão. Estavam também
imbuídos do esoterismo greco-alexandrino, ou seja, do hermetismo e do
neoplatonismo. Foi tal a sua fama que até o mesmíssimo Marco Polo (c.
1254-1324) relatava a Rustichello de Pisa, o escritor que plasmou as
suas viagens no Livro das Maravilhas do Mundo, quem eram
aqueles misteriosos cavaleiros islâmicos. Foi tanta a sua popularidade,
por cometerem crimes e magnicídios entre os personagens mais relevantes
do seu tempo, que, segundo outras teorias, o apelativo de hashshashin ou hashashiyyin
(fumadores de haxixe, ou drogados em haxixe) derivou para o conceito de
“assassino”. Ainda que o significado deste vocábulo estivesse vinculado
ao de “comedores de erva”, a fama daquelas gentes desviou-se para o
sentido que se lhe deu na Europa: em numerosas línguas ocidentais, um
“assassino” é o criminoso que comete um homicídio. Resta assinalar, sem
dúvida, que aos membros desse exército secreto que no Oriente também
eram chamados ghulat (“fanáticos”) pelos seus inimigos, e que no Ocidente ficaram conhecidos como Assassinos, não se lhes fez de todo justiça. Parece que Marco Polo se confundiu ao ouvi-los chamar hashshashin.
Acreditou o célebre viajante e comerciante veneziano que tal
denominação se devia a que o seu cruel fanatismo era estimulado pelo
consumo de haschis. Daí se derivou, nos romances de várias
línguas, a palavra “assassino”. Porém, a verdade parece ser outra. “Se
acreditarmos no grande escritor de origem libanesa Amin Maalouf, em seu
livro magistral Samarcande, a palavra provém da forma como Hassan Al Sabah costumava chamá-los: Assasiyoum, ou seja, fiéis a Assa, que é dizer, ao fundamento da Fé. Eram também chamados os Fidaï, ou seja, “os que se sacrificam”.” (Cf. Manuel Caballero, O Velho da Montanha, in El Universal, 23 de Setembro de 2001). Portanto, uma forma mais correcto de denominá-los seria Assasis ou Assacis.
“Para os ismaelitas, a visão que se tem
no Ocidente da suposta «seita dos Assassinos» é uma visão alterada e
caluniosa. Abdelkarim Osuna afirma que o Ismaelismo Reformado de Alamût
foi “um movimento de iniciação e cavalaria espiritual de beleza e
amplidão comparáveis ao de S. Francisco de Assis, porém, pelo que se vê
uma e outra vez, manchado pela necessidade de algumas mentes em tornar
tenebroso o que não se compreende”. E acrescenta: “A lenda negra de
Hassan Sabbah tem sido repetida numerosas vezes desde que foi recolhida
por algumas crónicas cruzadas e por Marco Polo. Segundo relata Henri
Corbin na sua História da Filosofia Islâmica, foi resgatada por Von Hammer-Purgstall no século XIX (Geschichte der Assassinen),
o qual transferiu a sua obsessão pelas sociedades secretas aos
fatimidas, e “atribuiu-lhes todos os crimes que na Europa atribuíam aos
franco-maçons ou aos jesuítas”. Ele inventou o termo “seita dos
Assassinos”, e a partir daí produziu-se uma etimologia quase cómica: S.
De Sacy, em sua Exposé sur la religión des Druzes, sustém que “assassinos” provém de hashshashin: consumidores de hashish” (Abdelkarim Osuna, Fantasias sobre “o Velho da Montanha”, in Webislam
núm. 144, 20 de Outubro de 2001). Teríamos, portanto, que “os
Assassinos” na realidade representariam o arquétipo de “Guardiões da
Terra Santa” dentro do mundo Islâmico, o mesmo que representariam os
Templários dentro do Cristianismo.”
O estabelecimento de relações da Ordem do
Templo com a Ordem dos Assacis parece remontar a 1118, ainda em vida de
Hugues de Payens, pois é nesta data que se estabelece um tratado
secreto através do qual o Mestre ismaelita se compromete a entregar
Damasco a Balduíno II em troca da cidade de Tiro, com a garantia do
Templo. Com o tempo estreitaram-se os laços entre ambas as Milícias,
pois numerosos cronistas cristãos e muçulmanos assinalam visitas
frequentes de dignatários templários a Alamût, contudo sem se saber que
nível atingiam esses contactos e quais os fins visados, adianta Bernard
Marillier (in ob. cit.).
Mas o que se sabe e é incontestável, é
que mesmo não sendo alterados os princípios fundamentais da teologia
católica pelo Templo, ainda assim muita metafísica islâmica veio a
influenciá-la com conhecimentos e interpretações mais amplas e
profundas, de onde a origem ultramarina do Hermetismo Templário
certamente recebido dos Assacis e do Iman Madhi Al Sabah, representante
directo da Tradição Primordial, isto é, da Sabedoria Iniciática das
Idades. Paul du Breuil não deixou de notar[5]:
“Os Templários foram rapidamente influenciados pela filosofia exótica
[antes devera dizer, esotérica] e isto foi notado no processo, quando os
inquisidores denunciaram práticas e conhecimentos heréticos,
maometanos, maniqueístas e zoroastristas”.

Corte de Hassan Al Sabah, o “Velho da Montanha”
Havia, com efeito, várias semelhanças
flagrantes entre as estruturas hierárquicas dos Templários e dos
Assacis. Estes possuíam duas bases: o estudo do Corão, num sentido
profundo e restrito, hermético, ensinando que Allah se confunde com a
Sabedoria Universal cujo atributo principal é o Conhecimento, que
no crente deve ir do raciocínio à intuição, e a nobre arte das armas (fatah);
assim também o Templo procedia de modo idêntico no manuseio da Bíblia,
principalmente no referente aos Profetas e ao Evangelho do Apóstolo S.
João, onde a interpretação do espírito primava sobre a letra, o símbolo
era penetrado para só ficar o seu ocultado sentido, isso a par do
manuseamento das armas com nobreza e distinção. Tal como os Templários
possuíam três votos perpétuos (pobreza, obediência e castidade), também
os Assacis os tinham: para eles o caminho espiritual (tariqat) implicava três preceitos fundamentais, como sejam: a pobreza espiritual (fair), a postura espiritual (jerqueh) e a lembrança contínua de Deus (zekr).
Até nas vestimentas eram semelhantes:
vestes brancas para os Templários e os Assacis, cruz vermelha para
aqueles e cinto ou faixa e turbante vermelhos para estes. Já a sua
hierarquia era rigorosamente paralela: o Grão-Mestre para o Templo e o Cheikh El Djebel para os Assacis; o Grão-Prior e o Daïkebir; o Prior e o Daï; o Cavaleiro e o Rafik; o Escudeiro e o Fidawi; o Servente e o Lassik. O que resulta na tabela seguinte comparativa das semelhanças entre as hierarquias dos Assacis e dos Templários:

Observa-se a analogia e os pontos de
encontro entre as duas Cavalarias, cujo espírito de demanda da Perfeição
nelas era o mesmo e o que certamente as interligava: à Militia e aos Miles cristãos correspondia a Futouwwat e os Fatâs islâmicos cujo arquétipo era Ali,
o “Cavaleiro por excelência”, genro de Mahometh (ano 624), uma e outra
conhecendo e exercendo rituais similares (jejum, penitências,
investiduras, códigos de honra, etc.). Tais laços foram longe, porque se
houveram Templários recebidos com todas as honras nas cortes
muçulmanas, igualmente houveram príncipes islâmicos, como Saladino e os
sultões de Damasco e do Egipto, que foram investidos na “Cavalaria
cristã”, conforme estabelece um cronista cristão desse tempo: “Sei de
boa fonte que vários sultões foram recebidos de bom grado e com grande
pompa na Ordem, e que os próprios Templários lhes permitiram celebrar as
suas superstições com a invocação de Mahometh”[6].

Guerreiro Assaci do Líbano
A esse conjunto de contactos falta juntar
os laços espirituais que a Ordem do Templo mantinha com outros grupos
muçulmanos, como igualmente com judaicos e cristãos orientais (como o
Zoroastrismo convertido em Igreja Nestoriana ou Caldeu-Assírio-Aramaica
no Oriente, e também com a Igreja Copta ou Egípcia e os vários
movimentos gnósticos e sufis povoando a orla mediterrânea, enquanto na
Europa deu-se de relações com o Maniqueísmo e o Catarismo, desde o Sul
de França até ao extremo ocidental do continente).
Essa inter-relação política, cultural e
sobretudo espiritual dos Templários com outros povos, prova manifesta do
seu amplo espírito católico, ou seja, “universalista” de
acordo com o próprio significado greco-latino do termo, pauta-se
inteiramente pelo que está escrito nos pressupostos Estatutos Secretos da Ordem do Templo,
escritos por Mestre Roncelin: “Sabei que Deus não faz qualquer
diferença entre as pessoas, cristãos, sarracenos, judeus, gregos,
romanos, francos ou búlgaros, porque todo o homem que reza é salvo por
Deus”. – 2.ª parte, artigo 5.
Essa «heresia» política, sobretudo, foi
colada pelos acusadores à outra «heresia» religiosa: a dos Templários
não terem nas suas igrejas a imagem de Cristo cravado na Cruz, e mesmo
esta ser alvo de pouca devoção. Já disse noutra parte que os
cavaleiros-monges adoravam sobretudo o Cristo Ressuscitado,
simbólico do Espírito vencedor da carne, esta representada na Cruz
expressora da Matéria e do Homem nela incarnado, pelo que este
representava a personalidade temporal da Individualidade intemporal que
não era Jesus Homem mas o próprio Cristo Deus, a cujo Advento
consignaram toda a sua Obra que nisto, aqui sim, foi verdadeiramente Teúrgica. Os mesmos presumidos Estatutos Secretos
o confirmam: “Porque o Filho de Maria e José foi santo, livre de todo o
pecado e crucificado, nós veneramo-Lo em Deus; mas a madeira da cruz
consideramo-la como o sinal do animal de que fala o Apocalipse”. – 1.ª parte, artigo 20.
O texto desses Estatutos, a ser
verdadeiro, prova a existência de uma pressuposta doutrina secreta no
seio da Ordem do Templo. Eles foram dados à luz do conhecimento público
quando no limiar do ano 1780 Friedrich Münter, bispo de Copenhaga, fez a
sua descoberta capital na Biblioteca Corsini dos Arquivos do Vaticano.
Diz que aí descobriu um pergaminho in 4.º, repartido em quatro partes, ornado com a Cruz do Templo e cada página composta por duas grandes colunas em escrita latina.
A primeira parte não é mais do que a
Regra primitiva da Ordem, copiada à mão por um tal Mathieu de Tramlay
“no dia de São Félix do ano 1205”, e com aditamentos do mesmo.
Conserva-se em Roma, na Biblioteca Corsini.
A segunda e terceira partes, assinadas
pelo copista Robert de Samfort, que efectivamente foi Procurador do
Templo em Inglaterra, são datadas de 1240. Compõem-se, respectivamente,
por trinta e vinte artigos, que o descobridor Münter agrupou sob a
indicação: “Aqui começa o Livro do Baptismo de Fogo, ou Estatutos
Secretos, redigidos para os Irmãos pelo Mestre Roncelinus”.
Finalmente a quarta parte, que Münter
intitulou: “Aqui começa a lista dos sinais secretos que o Mestre
Roncelinus reuniu”, dando avultadas indicações criptográficas.
Realmente houve um Templário chamado
Roncelinus ou Roncelin du Fos, referido pelos inquisidores tanto em
Chinon como em Paris, o que pressupõe a-priori a sua existência real. José Medeiros, responsável pela edição portuguesa desse documento[7],
diz: “O único templário conhecido com esse nome foi o provençal
Roncelin do Fos – segundo alguns, recebido em 1281 – mas igualmente
mencionado como Mestre da Comenda de Tortosa, na Síria, em 17 de Junho
de 1242. Segundo Charles d’Artefeuil[8], Roncelin foi recebido na Ordem em 1267 pelo cavaleiro Jean de Pellissier”.
O bispo Münter não iria ficar muito tempo
na posse desses documentos. Numa carta escrita ao seu amigo Wilke, que
preparava uma História dos Templários, revelou que a maior parte deles
desapareceram da sua posse sem saber como. Foi somente em 1877 que o
sábio alemão Mertzdorff, que era maçom, publicou as três últimas partes
do manuscrito pressupostamente descoberto pelo supracitado bispo
luterano Münter (que era também maçom, segundo Aldo Bonfiglio[9]),
ao ter a sorte de os encontrar em Hamburgo num rolo dos arquivos
privados da Loja maçónica dessa cidade a quem haviam sido oferecidos por
um tal dr. Buck[10].

Friedrich Münter (14.10.1761 – 9.4.1830)
Pela leitura do texto em português
recentemente publicado (até ao momento só conhecia a sua versão
francesa), depreende-se com facilidade que o mesmo desobedece quase
inteiramente aos cânones tanto ortodoxos como heterodoxos do Templo,
impondo-lhe usos e costumes que na época eram universalmente
desconhecidos, e se acaso não foi fabricado sobre as calúnias e
suspeitas tornadas públicas pouco antes e após a extinção da Ordem,
contudo parece obedecer à estrita necessidade de legitimar a
Franco-Maçonaria como herdeira directa da Ordem do Templo, o que não é
verdade em toda a linha senão de maneira muito indirecta e tardia.
O próprio José Medeiros acaba ponderando
ante o mais que controverso documento tal como está apresentado hoje:
“Se a Regra Secreta é um documento falso do século XVIII, ajudar-nos-á
a compreender a necessidade de justificação de uma ligação à Ordem do
Templo de algumas das Sociedades Filosóficas que se consideravam como
guardiãs da Tradição do Ocidente. Se, na realidade, é um documento
escrito no século XII, por Roncelin do Fos, a sua primeira tradução
deveria ser revista, para o expurgar de palavras e interpretações pouco
correctas”.
Fica-me a impressão de que o bispo
Münter, se acaso não inventou esse documento de Hamburgo, certamente
acrescentou elementos de sua lavra exclusiva ao mesmo que
pressupostamente descobriu, assim tendo alterado consideravelmente a
suposta redacção latina original para que ficasse como ora se apresenta.
A verdade é que o Mestre Jacques de Molay sempre negou a existência de
uma Ordem interna e de uma Regra secreta no Templo. E isto parece-me
sincero, porque o que se passaria não seria mais que o aprofundamento do
entendimento teológico por parte dos mais doutos que, para não
afectarem a compreensão geral e ortodoxa da catequese, reservariam para
si esses conhecimentos heterodoxos que, parece, seriam registados em bezerras,
isto é, livros de apontamentos pessoais contendo pensamentos
metafísicos de índoles diversas que na época teriam influenciado alguns
dos Templários. Obviamente que tais livros, espécie de diários pessoais,
eram reservados do conhecimento dos demais, tanto por serem íntimos
como para não originar afectação de natureza alguma.
É a única maneira plausível que encontro
para explicar os numerosos depoimentos que vão nesse sentido pelos
Templários detidos (todos eles confessando não terem visto directamente
mas, tão-só, terem ouvido de outréns, os quais, por sua vez, acabando
por confessar também terem ouvido… e assim arrastando-se o círculo
vicioso do “diz que disse”), parecendo ser a única excepção a do
Preceptor do Templo de Laon, Gervais de Beauvais: “Havia na Ordem um
regulamento tão extraordinário, sobre o qual tinha de ser guardado um
tão grande segredo, que qualquer Irmão preferia que lhe cortassem a
cabeça a revelá-lo”. E o seu advogado, Raoul de Presles, corrobora que o
Irmão Gervais “possuía um livrinho com os estatutos da sua Ordem, que
mostrava de boa vontade, mas tinha outro mais secreto que nem por todo o
ouro do mundo o mostrava”[11]. Tal livro secreto seria uma bezerra,
o caderno de apontamentos pessoais do género que Roncelin du Fos
eventualmente, a ser verdade, utilizaria para escrever a sua “regra
secreta”.
Aquando do processo contra o Templo,
alguns desses documentos estritamente pessoais, muitos deles talvez que
praticamente coevos dos inícios da Ordem, deverão ter chegado à posse do
Papa Clemente V que os terá feito desaparecer. Talvez também esteja
neles a causa de na altura do julgamento se ter inventado a lenda dos
“dois cavaleiros adoradores do diabo”, inspirada na figura de dois
guerreiros para um só cavalo tal como estava gravada nos selos
templários dos sécs. XII-XIII, tendo em cercadura a sigla latina: Sigillum Militum Xpistii
(“Selo da Milícia de Cristo”). Esse selo, que foi igualmente gravura de
numerosos documentos do Templo assim como de moeda corrente, tendo
percorrido a Europa e o Médio Oriente através do sistema bancário que
ele fundou, acabou servindo aos inquisidores como prova cabal e
argumento positivo de terem havido práticas sodomitas e demoníacas por
parte dos acusados. A lenda é a seguinte:
Dois cavaleiros cruzados marchavam para o
combate montados num só cavalo, pois eram muito pobres e, como bons
amigos, compartilhavam a mesma montada. Antes de se enfrentarem com os
agarenos, um deles encomendou-se a Jesus Cristo e o outro, a Lúcifer.
Aconteceu que o cavaleiro que se encomendara a Jesus Cristo ficou
ferido, enquanto o seu companheiro, que se havia entregue a Lúcifer,
saiu ileso do combate. Este convenceu o amigo ferido, face ao ocorrido,
do poder superior que tinha um amo como o Diabo, e logo aquele se
entregou nas mãos de tão poderoso senhor. Depois, como ambos buscavam
poder e glória, fundaram uma Ordem de Cavalaria que puseram sob a
protecção de Lúcifer, alcançando em pouco tempo enormes honras e
riquezas como nunca se viu em toda a Terra.

Carta templária alemã com a gravura de dois cavaleiros para um só cavalo (século XIV)
Apesar do óbvio sentido malévolo que os
inquisidores lhe incutiram, a lenda não deixa de igualmente sugerir o
entendimento dúplice que os Templários tinham da sua Ordem: desde o mais
imediato e exotérico, público, rendendo graças ao Papa e a Deus, ao
mais transcendente e esotérico, restrito, prestando obediência ao Mestre
e ao Diabo, isto é, à Sabedoria Diáblica ou Iniciática que, nem por
isso, deixa de ser igualmente Divina, até mesmo mais comparativamente ao
entendimento simples ou popular. Um e outro entendimentos estavam
interligados, pois não raro quem se ligava a uma Religião aprofundava o
seu conhecimento por igual filiação a uma Ordem. Esses dois cavaleiros
chamavam-se Hugues de Payens e Geoffroy de Saint-Omer, aquele
“convertido” por este. E ambos acabaram “convertendo” os seus sete
companheiros fundadores originais da Milícia, um deles Arnoldo ou
Arnaldo[12].
Esse último é identificado ao antecessor
de D. Gualdim Pais no Mestrado da Ordem em Portugal, ou seja, D. Fr.
Pedro Arnaldo da Rocha, 3.º Mestre Provincial natural de Santarém,
comendador da cidade e superintendente da construção da sua igreja de
St.ª Maria de Alcáçova, fundada em 1154, segundo a notícia dada por
Viterbo[13]:
“Assim consta da inscrição que depois da morte de D. Hugo e de D. Pedro
Arnaldo, se mandou exarar naquela igreja: “Ano da Encarnação – 1154.
Segundo a presente carta VII. Reinando D. Afonso, filho do regente Conde
D. Henrique, e sendo casado com a Rainha Mafalda, foi esta igreja
fundada em honra da St.ª Virgem Maria, Mãe de Cristo, pela Milícia do
Templo de Jerusalém, sendo Mestre Hugo e Pedro Arnaldo o seu Gerente.
Que as suas almas repousem em paz. Amém”.”
Na inscrição, que traduzo do latim, está escrito o nome grego Petro, Pedro, singular masculino de Petra, Rocha, logo seguido de Arnaldus, o que dá o nome completo de Pedro Arnaldo da Rocha.
Foi ele quem recebeu da rainha D. Teresa a primeira doação portuguesa
ao Templo, cerca de 1125, antes mesmo deste ser reconhecido oficialmente
pela Santa Sé: os bens e termos da vila de Fonte Arcada, em Penafiel.
Ainda segundo Viterbo, foi o primeiro Mestre português a quem D. Afonso
Henriques isentou de tributos, dando-lhe direitos extraordinários em
1157.
Segundo Frei Bernardo da Costa[14],
D. Fr. Pedro Arnaldo da Rocha veio a encontrar a morte gloriosa na
batalha da conquista de Alcácer do Sal, pelejando ao lado de D. Gualdim
Pais e de D. Paio Peres Correia, Mestre da Ordem de Santiago. Tombar no
campo da honra era a mais gloriosa morte que um Templário poderia
encontrar, sobretudo aqui no extremo ocidental da Península Ibérica, por
participar até à última consequência do sentido mítico-bélico do Pelágio,
ou seja, da demanda activa do Saber Arcano neste “Porto do Graal”,
assim considerado Terra Santa de Maria, dos Anjos, Heróis e Mártires, na
peleja contra a Ignorância e o Mal tão somente simbolizados – não que o
fosse – no agareno ocupante de uma terra não sua.
Quanto ao facto de Pedro Arnaldo ter sido
um dos fundadores da Ordem em Jerusalém e nomeado Procurador da mesma
na Província de Portugal, a verdade é que o seu nome aparece como Frei Arnaldo na
assinatura do foral de Redinha, em 1159. Posteriormente Frei Bernardo
da Costa, certamente recorrendo a documentos alcobacenses hoje
desaparecidos, viria a escrever na sua História da Ordem de Cristo, pp. 125-126: “O mesmo Ferreira [Alexandre Ferreira, nas suas Memórias e Notícias da Ordem dos Templários] repete no segundo tomo e nos dá a notícia de outro Cavaleiro, e diz, referindo a Faria [Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), Epítome de las Historias Portuguesas,
1.º de 2 vols., Madrid, 1628]: “D. Arnaldo foi um dos primeiros nove
instituidores dos Templários”. Repete o mesmo Ferreira: “E por
autoridade deste grande escritor foi Arnaldo um dos nove cavaleiros
gloriosos instituidores da Ordem”. […] Bem pode ser que, nesta parte,
diga melhor Brandão [Fr. António Brandão, no seu 1.º de 2 vols. da Monarchia Lusitana,
Lisboa, 1632: “E assim parece que seria dos primeiros em Portugal, e
não na Palestina”], e que na verdade Arnaldo da Rocha seja um dos
primeiros Cavaleiros Templários, não dos da Palestina, mas de Portugal.
[…] Ele o faz, dizendo ser companheiro de D. Gualdim Pais, primeiro
Mestre neste Reino no ano de 1126. […] Porém não podemos duvidar que
fosse um dos primeiros Cavaleiros que entrasse em Portugal a estabelecer
a Ordem”.
Reforça o facto de D. Fr. Pedro Arnaldo
ser o Mestre que participou na fundação da Ordem, o caso importante do
Templo se firmar primeiro em Portugal e só depois nos reinos de Espanha,
segundo o mesmo Viterbo (ob. cit.), e isso lhe concedia
primazia peninsular que decerto não nasceu do nada, mas e tão-só por um
dos fundadores do Templo ser português.
Também se pretendia ser português um
outro cavaleiro que igualmente seria um dos fundadores da Ordem do
Templo: Gondomare, Gondemare ou Gondemas. Ideia seiscentista e
setecentista, certamente nascida para reforçar a importância primaz do
Portugal Templário e soberano ante as pretensões políticas de Espanha e
da restante Europa em o dominar, ganhou força posteriormente por via de
um romantismo filológico, pois a única ideia plausível que encontro é a
do nobre cavaleiro franco fundador do Templo eventualmente ter acabado
por instalar-se em Gondomar, nas proximidades do Porto, e daí a
toponímia do lugar a qual, mesmo assim, é muitíssimo anterior ao nome do
mesmo, sobre a qual já disse[15]: “Com efeito, o orónimo e topónimo Gondomar divide-se em gundu, “guerreiro”, termo derivado do antigo dialecto alto-alemão do grupo ocidental, wuntu, sonorizado guntu, e maru, termo universalizado na língua japonesa significativo de “mar”, mas que, na prosódia hindu-germânica do sânscrito mahu e maha, significa “grande”. Mahu entrou no grego sob a prolação mega, “grande”, e no latim como prefixo de “grandeza”: magno. Entre nós tomou a forma mago, como na expressão “Rei Mago”, que quer dizer “Grande Rei”. Em resumo, Gondomar possui a significação primitiva de Guerreiro Grande, solar ou celeste em tudo semelhante ao S. Jorge, “Grande Obreiro”, “Supremo Lavrador”, de que fala a hagiografia e retrata a iconologia religiosa”.
Também na Europa, na Península Ibérica,
mormente em Portugal os Templários deram-se de intimidades com o Islão,
primeiramente através dos moçárabes, os cristãos submetidos aos árabes
após estes conquistarem a Península Ibérica liderados por Tarique, no
ano 711, cuja entrada fizeram pelo pelo Sul. Os moçárabes eram os “como
que árabes”, cristãos sujeitos aos usos e costumes arábicos, mesmo que
mantendo o seu rito católico, um misto de ariano-visigótico e
greco-bizantino (donde se chamar ao rito moçárabe igualmente de
hispânico), no interior dos seus guetos, as al-kênissah ou caneças
(“assembleias de cristãos”), tendo a casta moçárabe começado a
florescer entre os séculos VIII-IX como cristã inserida e subordinada à
estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o
Crescente em muito se identifiquem por meio dela.
O moçárabe, nome aliás escrito na forma
plural, aparece pela primeira vez no foral que Afonso VI concedeu (1101)
à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos quos vulgo mozarabes vocitant, de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas[16].
Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o estado islâmico limitou a propagação judaica e cristã aos sobreditos guetos ou lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos cristãos como a alfama é o asilo ou gueto dos judeus (após a Reconquista cristã e imitando o modelo islâmico, criar-se-ia o gueto da moirama, ou seja, a mouraria), com a diferença de que a paróquia – nome gótico – se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah ou kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela, nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da palavra (caniça, caneça), uma cabeça de assembleia cristã: a sede paroquial[17].
O desenvolvimento da rede paroquial
durante a Reconquista cristã alerta para a função da freguesia nas
acções da conquista e consolidação do domínio das caneças contra as assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram, ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e mesquitelas, enquanto outras sobreviveram durante os séculos de ocupação. Caneça, ou caneças, topónimo moçárabe, é uma igreja paroquial aonde acorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as populações desse gueto
cristão tornado mais importante em regime de hábito disperso, como
sucedia na região estremenha, mormente nas terras saloias de Loures,
Mafra e Sintra[18].
Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito, freguês, filho da Igreja (feligrês, corruptela de fillius Ecllesia), mesmo que a sua mulher sirva de lavadeira ao califa.
O modelo jurídico islâmico por sua perfeição aristotélica serviria de inspiração ao senado latino dos cristãos, reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D. Afonso II[19]. O senado islâmico era a shari’a, o tribunal no qual o cádi ou juiz agia como representante do califa.
Por via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom carácter e
comprovado saber. Embora a sua jurisdição abrangesse ao mesmo tempo a
lei civil e a lei penal, na prática o Estado encarregava-se da maior
parte da última. Ora, era exactamente isso que o senado fazia: mantinha a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do Estado vigente.
![12278634_1081285348561636_2957680669323627242_n[1]](https://lusophia.files.wordpress.com/2015/11/12278634_1081285348561636_2957680669323627242_n1.jpg?w=500&h=496)
Foi através do moçarabismo que os
Templários nesta parte da Península Ibérica recolheram e assimilaram
parcela enorme da cultura árabe, principalmente a vertente
filosófico-religiosa, para não falar da político-militar. Nessa primeira
vertente, entra aqui a presença moçarábica da santa mártir Íria, diminutivo de Irene, a Íris grega que, em egípcio cóptico, associa-se a Ísis, sendo exactamente ela, por sua natureza cristã e arábica, o ponto de encontro entre o eclesial e o mesquital.
Padroeira das cidades templárias de Tomar e Santarém (corruptela filológica de Santa Irene), Íria foi a mártir portuguesa nascida junto às margens da velha Nabância
(Tomar, sendo curioso que num quadro de Gregório Lopes na igreja de S.
João Baptista desta cidade, “A cabeça de João Baptista”, Salomé e
Herodes estejam à mesa onde um prato apresenta a curiosidade de um nabo, ou nabão, alusão à memória nabantina
do primitivo burgo) nos finais do século VII, segundo a sua tradição
hagiográfica, sendo hoje evocada a 20 de Outubro. Mais vocacionada a uma
vida de adoração e contemplação mística, mantendo a incorrupção da
virgindade espiritual, que ao casamento carnal, recusou a proposta de um
mancebo árabe que por ela se tomara de amores, e ele, possuído de
paixão desesperada, deu-se em fatal cegueira de amor e degolou-a com a
sua espada, de seguida atirando o corpo ao rio Nabão. O cadáver veio
corrente abaixo até Scalabis, indo tomar o nome da santa mártir
– Santarém. Após o achamento do corpo santo, verificou-se faltar-lhe a
cabeça. Seria encontrada quase à boca da ribeira de Sacavém, diante do
povoado de Azóia, cujo nome viria a ser secundado pelo da santa – Santa
Íria de Azóia –, esta que acabaria elegida imagem ideal do Amor supremo
tanto por cruzados como por crescentados, fazedores da Guerra Santa (Al-Fatah através da Jihad ou Crescentada) no Oriente (Chark) e no Ocidente (Gharb) da Península Ibérica, batendo-se pela posse efectiva dos lugares sagrados assim consignados pela Tradição Primordial.

Santa Iria, Tomar
Quanto ao termo azóia, os eruditos derivam-no do arábico az’zawiya, “canto angular”. Para se entender o que isso significa, ter-se-á de recorrer à cultura religiosa arábiga ou árabe erudita.
O equivalente muçulmano das ermidas cristãs são as cubas e os seus habitantes, os santões, espécie de marabutos, proliferaram no Andaluz nos séculos VIII-IX. As cubas em breve se transformaram em comunidades, algumas vezes com muita gente, comunidades essas chamadas az’zawiyas, “azóias”, topónimo frequente a sul do Mondego. A azóia
era um mosteiro, espécie de convento, onde se treinavam milícias
maométicas, aptas para a guerra islâmica, que passa pela educação da
alma, escolástica corânica agregada em madrasa que os cristãos chamariam de “carvoeira”, carvoaria” e até “bafometaria”.
As casas onde as azóias existiam
inspiravam-se na arquitectura árabe, casada com os condicionalismos
locais, e muitas delas foram incorporadas em edifícios cristãos
posteriores (e tem-se na freguesia de Santa Íria de Azóia as ruínas do
convento e capela dos Monjões, possivelmente dos alvores da
Nacionalidade), quando não simplesmente transformadas em eremitérios e
ermidas cristãs. A casa é, porém, o menos. O mais é o espírito da azóia,
ou seja, a Companhia de Mahometh, meio militar, meio mística,
verdadeira Cavalaria Ideal entre dois mundos: o mundo do Islão e o mundo
a que a Guerra Santa ou Al-Fatah tinha de ser levada, para maior glória de Allah.
As azóias começaram, algumas vezes, por simples eremitérios em torno de um santão ou monjão, como Maruani al-Xintari, coevo do Conde D. Henrique, peregrino, eremita, pregador e asceta da Serra da Lua, Al-Shantara ou Sintra.
A tradução de azóia como “canto
angular” terá a ver com a posição estratégica em que era sempre
instalada, como se verifica no concelho de Sintra onde se avista a
aldeia da Azóia, junto ao Cabo da Roca nas faldas de São Saturnino da
Peninha da Serra, e também na freguesia de Santa Íria, na zona oriental
do concelho de Loures, defendendo-a das possíveis incursões inimigas
pela margem ribeirinha. Isso leva-me ao castelo de Pirescoxe,
distado cerca de 1,5 km dessa freguesia, cujo povoamento cristão recuará
aos inícios do século XIII, à época de D. Paio Peres Correia, Mestre da
Ordem de Santiago, de quem o dito castelo herdou o nome: Pires, ou Peres, Coxe, ou Correia, em arábigo[20].
Além da hagiografia tradicional de Íria,
parecendo inspirada nessa outra hermética de Ísis, apercebe-se que
alguns dos Templários acaso se terão dado ao exercício da Alquimia (Allah-Chêmia, “Química Divina”), e a ter acontecido decerto aprenderam junto dos sábios do Islão que viviam reclusos em cubas e em azóias. Isso reporta-me à recomendação feita aos Irmãos do Templo nos artigos 7 e 19 da sua pressuposta Regra Secreta:
“Tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se
terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às
reuniões sem o risco de serem perturbados… É interdito, nas casas onde
os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência
Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto
nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo”.
A verdade é que símbolos, emblemas e
imagens de indiscutível significado hermético, muitos deles pertencentes
ao imobiliário tradicional da Alquimia, decoram aqui e ali o Roteiro
Templário de Norte a Sul de Portugal. Talvez que a prova mais flagrante
se encontre na igreja-matriz da Golegã (próxima do castelo templário da
Cardiga), construção templária reconstruída no século XVI por uma
Confraria de Mestres-Canteiros liderada pelo francês Diogo Boytac, sob a
protecção dos Freires de Cristo da Comenda da Cardiga[21]. Encontra-se aí, numa das faces do púlpito manuelino e inscrita em caracteres góticos, precisamente a palavra Alquimia, e como se não bastasse, lê-se noutra face: Mariz.
Ora, desde pouco antes da Golegã a Tomar o
itinerário apresenta filologicamente as características de uma
geografia sagrada por onde se realizará uma Alquimia Mística, como
consecução derradeira da Grande Obra no Homem e na Natureza, aqui, no
Luso e na Lusitânia: Salvaterra de Magos (a “Terra Salva”, a “Terra
Essencial ou Vermelha” da Matéria-Prima que os Magos ou Filósofos do
Fogo terão de manipular argilaticamente para dela construírem um Homem
Novo, mais justo e perfeito mental, moral e corporalmente; “Terra Salva”
que na Bíblia se aponta em Caná, lugar onde o Noivo transformou a água
em vinho, e, curiosamente, tem-se próxima a Salvaterra a vila dos vinhos
fortes, Cartaxo), Golegã (ou “Gólgota”, onde o seco e o húmido se
atritam ou crucificam, a fim de resultar a quintessência da ressurreição
da Alma Universal que a tudo anima como Fogo da Vida, Ignis Vitae),
Cardiga (ou “Cardo”, planta joanina emblemática tanto da Fénix –
símbolo da Alquimia – como do Fogo Sagrado), Atalaia (a “Vigia” do
Espírito Santo, onde já se percepciona a Iluminação do Adepto de retorno
ao Éden) e Tomar ou Tat Maris (o “Mar Universal”, representativo do Éter ou Akasha,
o que é representado na Casa Eclesial de Santa Íria, Ísis ou Maria,
onde se celebra o Pentecostes e o Espírito Santo se revela como a
vivíssima Pedra Filosofal, expressiva da Iluminação Interior do Adepto).
Essa relação mística com o mar e a
navegação nele, tanto por cristãos como por islâmicos, tão-só traduz o
movimento do Espírito Santo por sobre as Águas Primordiais da Criação.
Niffari, um asceta do Islão do século X que morreu no Egipto, deixaria
escrito no seu tratado A Revelação do Mar[22]:
“Deus me ordenou que contemplasse o mar, e eu vi os navios […]. Eles
[os navegadores] se movem porque Deus os faz mover-se, e as suas
palavras são as palavras de Deus que deslizam sobre as suas línguas, e a
sua visão é a visão de Deus que entrou em seus olhos”.
Esse particular trajecto ribatejano, em
muito semelhante a tantos outros feitos sagrados existentes ao longo do
Roteiro Templário Português, acaso terá o seu sinal comprovativo na
célebre “Pedra de Roseta” grega que os Templários parecem ter adoptado,
como se vê inscrita nas paredes das celas que acabaram sendo os seus
cárceres, nos seus castelos franceses de Chinon e Jarnac, antes do
julgamento e sentença final em Paris:

Cuja tradução (segundo o manuscrito grego 2511 depositado na Biblioteca Nacional de Paris), é: “O semeador está à charrua. O seu trabalho faz mover as rodas”.
Exposta criptograficamente, trata-se de uma referência óbvia à agricultura, mas neste caso à Agricultura Hermética, ou seja, a própria Alquimia, cujo semeador ou adepto, percorrendo as doze fases da Grande Obra (Ergon),
persegue a colheita, que é dizer, a Iluminação Espiritual como meta
suprema que os Templários retratavam no próprio Cristo Ressuscitado,
feito assim a divina Pedra Filosofal, isto é, o Pão da Vida Eterna.
A verdade é que essa “Pedra de Roseta”
viajou por toda a Cristandade e as cinco letras do SATOR acabaram sendo
interpretadas, pelos eclesiásticos da Igreja Copta, como representativas
dos cinco cravos da Cruz de Cristo. Foi assim que a lenda levou a
grafar na capela do “caçador” Santo Eustáquio, em Bréscia, que os
pastores que foram adorar o Salvador recém-nascido chamavam-se Sator, Arepo e Teneton.
Ao ser posto em cruz esse quadrado
encerra a palavra TENET (“movimento”), que será a chave do criptograma
como imagem codificada de Deus, em volta da qual todas as coisas se
fazem e desfazem numa perfeita repartição, numa perfeita igualdade.

O T nos extremos da cruz poderá ser a inicial tanto de Templum como de Templatium, “templo e templário”, e o N central de Nostra e Nudator, “nu, despojado”, e sendo Tenet “movimento, acção, equitativo, equilibrado” ou conforme a Regula,
“regra”, assim concluo: “Puro e Justo é o nosso Templo”… bem diversa
dessa outra acção cesarista que, afinal de contas, foi completamente
impura e injusta para com os infelizes aprisionados.
O Templo configurava o próprio Corpo de
Cristo. Templo de Cristo movendo, moldando em seu tempo os arquétipos de
Portugal e de todo o Mundo aonde chegou. Esta mesma mensagem encerra-se
numa pintura de Gregório Lopes exposta na igreja de S. João Baptista de
Tomar, referente ao milagre da multiplicação dos pães (que se seguiu ao
da multiplicação dos peixes, segundo o relato evangélico, pelo que
Cristo foi cognominado nas tradições do Graal, principalmente no Parzival, de “Rei Pescador” – Rex Piscatoris).
Nela vê-se o Salvador, em destaque sobre um pequeno outeiro cercado
pela multidão, operando o referido milagre, segurando na destra um
bordão com um listel branco desfraldado onde se lê em latim a frase do
Evangelho de João: Hic est panis quem dedit vobis dnnus adsod – “Este é o Pão que vos dá a Vida Eterna”. Mas se juntar-se as palavras estpanis o termo soará estranhamente Hispânia, Península cuja cabeça é Portugal como “Terra de Luz” (Lux-Citânia),
pelo que depende dele dar ao Mundo o Pão da Sabedoria como o mais
precioso Pão Eucarístico revelador do Mental Iluminado, o que se ajusta
muito bem à frase dos Actos dos Apóstolos (XIII, 47): “Estabeleci-te como Luz (Lux) das Nações (Citânia) a fim de levares a Salvação aos confins da Terra”.
Se no Ocidente europeu, mormente na
Península Ibérica, os Templários chegaram à cultura arábica por via
indirecta, ou seja, através da moçarábica, como já disse, no entanto no
Médio Oriente o contacto foi directo, a ponto do seu sistema funcional
político-militar decalcar-se grandemente daquele dos ismaelitas da
Milícia dos Assacis.
Também já disse que o Templo manteve
relações estreitas com várias sociedades filosóficas e corporativas
existentes nessas partes orientais: tanto colégios cristãos de Bizâncio
ou independentes de foro anacorético, como corporações muçulmanas ou tarucs, florescidas do século IX em diante com o Movimento Karmate ou Ismaelita, do qual sairiam em 1090 os Assacis.
Foi pela adaptação do modelo de uns e outros que os Templários do reino
de Jerusalém constituíram comunidades de construtores, posteriormente
propagadas na Europa ocidental com o acréscimo, devido à influência de
Cluni e de Cister, do lígure-celticismo, adicionando-se depois a cultura
judaica.
Como foi igualmente falado, no aspecto militar os Templários eram em muito idênticos aos Ribat
do Islão, em ambos os casos treinados na destreza suficiente para um só
homem derrubar três adversários, nunca devendo recuar em número
inferior a esse, o que inúmeras vezes levou uns e outros, por excesso de
zelo, a serem completamente chacinados na batalha.
O Grão-Mestrado, iniciado com Hugues de Payns, tinha em relação à Milícia cristã a mesma autoridade que o Cheikh el Djebel
em relação aos cavaleiros Assacis. Esse último, por seu halo de
mistério e secretismo, chegou mesmo a ser identificado ao próprio Preste João
(de quem já se fala em 1177, devido a Frederico I e o Papa Alexandre
III terem recebido dele uma suposta carta), filho de Feirefiz, cavaleiro
da Távola Redonda, este que após ter recebido o Baptismo do Fogo e da
Água casou com a princesa do Santo Graal, filha de Parsifal e
Condwiramur, e retirou-se para o Oriente onde estabeleceu o Cristianismo
que foi mantido pelo seu filho primogénito, o Preste João, estabelecendo-se assim a linhagem do Santo Graal cuja dinastia, segundo o Parzival de Wolfram Von Eschenbach, ia até ao pai, filho de Lohengrin (por sua vez, filho de Parsifal, o Chevalier au Cygne
ou “Cavaleiro do Cisne”, e de Brancaflor) e de Elsa, duquesa de
Brabante, prosseguindo a linhagem mítica até Godofredo de Bouillon, o Chevalier Cygnatus
ou “Cavaleiro Assinalado”, primeiro rei cristão de Jerusalém, como era
predicado em 1170 pelas canções de gesta anónimas de que deu notícia o
arcebispo Guilherme de Tiro[23].
É assim que o mito apologético dá Godofredo de Bouillon ou Bulhão
(natural de Bolonha sobre o Mar, Lorena, 1058 – Jerusalém, 18 de Julho
de 1100) como bisneto de Parsifal e neto de Lohengrin, desde logo por
direito consanguíneo um membro efectivo da Dinastia Eleita e da Ordem
Eleitora do Santo Graal. Com isso tudo, quando foi coroado rei de
Jerusalém em 1099, na realidade o que se estava entronizando era um
cavaleiro Cygnatus – um assinalado, um eleito – por direito legítimo dignitário e expressão directa do Graal Vivo, do Rex Rexis,
o Rei dos Reis como Imperador Universal (tanto valendo por Melkitsedek,
Preste João ou Bey Al Bordi…), consequentemente, legalmente investido
na representação ou até incarnação directa do Centro Supremo do Mundo (Salém ou Shamballah) expressado simbolicamente no Centro Supremo da Cristandade: Jerusalém.
Se acaso Godofredo de Bouillon recusou a
coroa de ouro de rei da cidade santa de Jerusalém, foi por não querer
equiparar-se a Cristo Rei aí coroado com uma coroa de espinhos, e mesmo
após entronizado manteve a humildade titular de ser só Advocatus Sancti Sepulchri
(Protector do Santo Sepulcro). Recuando a dinastia sagrada do Santo
Graal à pessoa do próprio Jesus Cristo, segundo a hagiografia mítica,
cujo Sangue Real perpetuou a linhagem, logo só a sua descendência tendo
direito ao trono da cidade santa, então compreende-se porque os
Templários frustraram os planos imperialistas de Frederico II,
aventureiro por conta própria imerecedor da coroa santa de Jerusalém e
do santo Império Espiritual do Mundo de então.

Godofredo de Bouillon (1058-1100)
Ambas as Ordens do Templo e dos Assacis, como também foi dito, fizeram a sua Guerra Santa ou Al-Fatah,
Cruzada e Crescentada, que, mais que de beligerância pela posse e
domínio daquele considerado na Idade Média o Centro do Mundo, seria
sobretudo santa por consistir na guerra (jihad) que o homem tem
que travar consigo mesmo, como verdadeiro guerreiro no sentido místico,
batalhando pela supremacia e vitória da sua natureza espiritual sobre a
inferior, anímica ou animal[24]. Daí as palavras de Ibn El-Arabi, o Al-Andalusi, inseridas no seu Risale-Tul-Wujudiyyah
(“Tratado do Ser”): “Por isso o Profeta disse: “Morre antes de
morreres”, isto é, conhece-te a ti próprio antes de morreres. Porque
quando tu “te conheceres a ti próprio”, o teu egoísmo desaparece e tu
sabes que não és outro do que Deus”.
Foi nesse sentido que o mais arábigo dos
cristãos, Raimundo Lúlio, ao ver a Cristandade perder inteiramente o
Médio Oriente em 1287 propôs a Filipe, o Belo, uma Cruzada de Conversão à
Terra Santa, onde Templários e Hospitalários estivessem juntos e nessa
união houvesse um só Grão-Mestre, com o título de Bellator Rex, “Rei Guerreiro”, decalque do Piscatoris Rex, o “Rei Pescador” da lenda do Parzival
incarnado por Cristo nos já citados milagres das multiplicações dos
pães e dos peixes. O plano desenvolvido por Lúlio, publicado em 1305 no
seu Liber de Fine, após ter visitado Chipre em 1302, não teve
seguimento, para tristeza do seu amigo Jacques Borguemundus de Molay. À
obra de Lúlio o rei contrapusera um outro livro, De Recuperatione Terrae Sanctae
– “Da Recuperação da Terra Santa”. Tinha sido escrito por Pedro de
Bois, membro não oficial do formidável grupo de advogados de Filipe e
colega de Nogaret, o advogado principal do rei francês, e escondia a
verdadeira intenção, sob a capa de uma pretensa Cruzada, da hegemonia
universal dos Capetos a que pertencia Filipe. Tal não deve ter passado
despercebido a de Molay, quiçá vendo nisso a tentativa de substituir uma
dinastia sagrada por essa outra completamente profana cuja intenção era
o domínio imperialista do mundo conhecido, pois quem possuísse a Terra
Santa possuiria o mundo, pelo que de imediato o Grão-Mestre desaprovou
as pretensões do monarca francês e o projecto dessa Cruzada foi
arquivado.
Descendente em linha directa da Mística
Templária após a extinção da Ordem, na Europa Central formou-se um outro
Movimento Místico, misto de cátaro e arábigo, nos meados do século XIV e
que chegou ao século XVII: o do Cristão Rosa+Cruz.
A Rosa+Cruz, emblema hermético da Pedra Filosofal, tanto valendo por Iluminação Mística,
já era conhecida dos Templários como se verifica em várias lápides
tumulares e selos de abóbada suas. Como Instituto, parece ter sido
inspirado na determinação de alguns Templários de natureza clausural,
contemplativa, em restaurar os laços rompidos entre o Oriente e o
Ocidente pela perda da Terra Santa, e depois pela abolição da Ordem.
Também os Assacis pouco menos tempo duraram que os Templários. Em seu lugar ficaram os Sufis, místicos islâmicos de natureza idêntica aos Rosa+Cruzes
com os quais mantiveram ligações próximas de cultura e espiritualidade,
notórias no período Henriquino, tudo isso levando-me às seguintes
correntes sucessórias das originais Milícias do Ocidente e do Oriente:

O Sufismo é anterior ao Movimento Assaci,
pois data dos meados do século VIII, tendo influenciado inteiramente a
religiosidade do segundo. Os sufis cobriam-se com um manto de lã de
maneira igual aos anacoretas cristãos, só nisso sendo iguais, pois que
como pregadores eram completamente opostos à via ascética ou azuhd, primando pelo convívio doutrinal com todas as castas do Islão. Praticavam o dhikr, a repetição de palavras ou sentenças corânicas em louvor de Allah, e postulavam três votos universais: faqr (pobreza absoluta), twakkul (entrega confiante a Deus) e tauh’îd (união com Deus). No seu caminho para Deus, o sufi passa por diversos estados místicos (ah’wâl) e estações de entendimento (maqâmât). A união com Deus é fruto da Sabedoria de Deus (ma’rifa).

O saber arábigo presente na cultura hispânica e na Ordem do Templo
Há um misticismo ortodoxo, sunita, e um
outro heterodoxo, xiita ou livre. Este foi o mais frequente e expressivo
no Médio Oriente, e também em Portugal, que por sua natureza eclética
impossibilitava a-priori qualquer tipo de fundamentalismo com recurso às armas. Quanto ao Sunismo, está documentado, por exemplo, pelo filósofo Algazel.
Em Portugal, o Sufismo brilhou através do
Moçarabismo e, sem dúvida alguma, os Templários vieram depois a ser
influenciados por ele. Dentre os sufis famosos no País, figuram os nomes
de Abû Al-Walîd Al-Bâjî (de Beja, século XI), Ah´med ben Qasî (de
Silves, século XII) e de Al’Uriâni (de Loulé, século XIII), um dos
mestres de Ibn Arabi de Múrcia[25].
Esse cuidado dos Templários em manterem o vínculo à cultura e à
espiritualidade árabes, levam-me a citar aqui as palavras preciosas do
Professor Henrique José de Souza[26]:
“Os Árabes concorreram, de grande modo,
para a libertação do espírito humano, a ponto de fazer emudecer Roma,
mas obrigando-a a realizar quantas possíveis imagináveis cruzadas fossem
necessárias… mas, para a intelectualidade futura da nossa própria Raça,
os Árabes foram poderosamente protegidos pelas chamadas “Forças
Invisíveis”. Sim, as que procedem do verdadeiro “Culto de Melkitsedek…”
para não dizer, de uma “Religião cujas fronteiras jamais serão
transpostas por indivíduos de cultura medíocre, muito menos, possuidores
de um carácter abaixo da crítica…” Se tal não tivesse acontecido, Roma
teria conquistado toda a Terra, jamais se preocupando em desenvolver as
suas faculdades intelectuais. Sim, porque a melhor maneira de governar,
seja política ou religiosamente, é mantendo o analfabetismo, enfim, a
ignorância.»

Os sábios árabes como os maiores vultos da universidade medieval
Voltando ao tema da Fraternidade R+C,
aquele que nela demandava o Grau Supremo, o da Iluminação Mística ou
Crística, era considerado Rosacruciano ou Rosacruzista, que no Sufismo equivalia ao Taçawwuf, e só o Iluminado ou conquistador desse estado supremo podia efectivamente considerar-se Rosa+Cruz, igual em natureza e consciência ao sufi Mutaçawwfin.
Como aponta René Guénon[27], não será desinteressante indicar que o termo çûfî (sufi), pelo valor das letras que o compõe, equivale numericamente a el-hikmah-el-ilahiyah, que é dizer, a “Sabedoria Divina”, afinal, a Teosofia
corrente nos cultos neoplatónicos de Alexandria que vários dos
Templários souberam assimilar e trazer para o Ocidente adaptando-a às
luzes do esclarecimento deste, impulsionando-o assim para o então ainda
longínquo Ecce Occidens Lux!
O Rosa+Cruz e o Sufi (e também o Yogui) estão ao mesmo nível consciencial: o Crístico, Intuicional ou Búdhico, comparticipando igualmente dos Mistérios Maiores como Jinas Representativos da Agharta mesma, como “Seres Transcendentes” porque ligados pela Intuição à Mónada Divina – Anupadaka ou Noûs.
O Rosacruciano, correspondendo de modo imediato ao Taçawwuf idêntico em natureza e consciência ao Ayatolah (e ao Yoguim),
concorre ao nível da Tríade Superior ou Individualidade Espiritual, mas
ainda estando nos Mistérios Menores da personalidade humana pelos quais
procura firmar o alinhamento psicomental (kama-manásico) com a
divina Intuição, a Inteligência Espiritual ou a presença do seu Cristo
Interno, pelo que ainda possui o “Ser Imanente” incarnado ou crucificado
na Matéria, esta que já foi pelo Rosa+Cruz superada e transformada em esfera solar que é a Rosa florescida no centro da Cruz, o “Ser Transcendente”.

Pedra
de cabeceira tumular templária com a Rosa+Cruz (século XIII). Igreja de Santa Maria de Loures, 28.ª Comenda da Ordem do Templo em Portugal
A ligação entre o Sufismo e a Rosa+Cruz encontra o seu maior eco em Mohyid-Din Ibn Arabi, cujas obras, Kitâb el-Isrâ (“Livro da Viagem Nocturna”) e Futûhât el-Mekkiyah
(“Revelações de Meca”), encontram severas semelhanças com o plano
traçado por Dante Alighieri, pressuposto cronista póstumo do Templo,
para sua Divina Comédia[28]. Afirma Ibn Arabi no Hikmatun Nuriyah:
“O Mundo depende de cada um dos Nomes Divinos, em virtude do que é
análogo a tal Nome do Mundo, e também porque todo o Nome está contido na
determinação essencial de Deus, pois Ele é Deus e nada mais”.
Quantos e quais serão esses Nomes Divinos
de cada um dos quais, diz Ibne Arabi, depende o Mundo? Mahometh afirmou
que “Deus possui noventa e nove Nomes, ou seja, cem menos um; aquele
que os conhecer entrará no Paraíso”, e a autoridade do Profeta é tão
grande que basta para afirmar a importância do conhecimento e da
meditação sobre cada um dos Nomes Divinos.
Há duas versões, uma de Tirmiddhi e outra
de Ibn Majda, e como apresentam algumas diferenças irei apresentar a
ambas para se poder, no momento, pelo menos ter uma ideia do mistério
transcendente que se oculta sob os véus deste simbolismo sem dúvida
promanado de um outro “Canto dos Cantos” ou “Ode ao Som” (Odissonai)[29].







O número 99 tem, aliás, um valor
profundamente místico, principalmente quando se atenta no facto de ser
um múltiplo de 11 que é um dos números-chaves na interpretação dos
Mistérios Celestes. O próprio Dante, que recebeu o influxo esotérico das
correntes Sufi e Xiita ou Livre do Islão, veio a dividir a Divina Comédia
em 99 cantos, 33 para cada uma das suas três partes: “Inferno”,
“Purgatório” e “Paraíso”. É verdade que a divina obra de Dante possui
ainda um centésimo canto que geralmente é incluído na primeira parte, e
que deveria ser antes uma espécie de introdução geral ao poema[30]. Mas também alguns místicos do Islão afirmam que se poderia acrescentar um centésimo à lista dos 99 Nomes Divinos: o de Allah.
Os mais sábios, no entanto, referem-se vagamente a esse último Nome,
não o designando por termo algum e dizendo apenas que ele é al ism el ‘a’z’am, “o maior dos Nomes”, Nome desconhecido dos homens.
![Allahu-Akbar[1]](https://lusophia.files.wordpress.com/2015/11/allahu-akbar1.jpg?w=500&h=375)
Isso vem concordar com o que afirmam
todas as tradições a respeito de alguma coisa que depois de certa época
se ocultou aos homens, ou foi por eles perdida: o Haoma dos persas, o Soma dos hindus, o Santo Graal
do cristianismo celta, ou então, o que mais recorda a tradição
islâmica, o Grande Nome Divino dos judeus, cuja pronúncia foi esquecida e
a que se refere a Maçonaria moderna no simbolismo da “Palavra Perdida”
equivalente do “Silêncio Sacerdotal”.
Essa concordância das tradições
religiosas não revela um plágio, como poderão pensar alguns imbuídos do
cepticismo moderno, mas a sua unidade transcendente, unidade paradisíaca
provinda de uma única Tradição Primordial da qual só participam os que
compreenderam e harmonizaram em si mesmos os 99+1 Nomes de Deus.
Assim, para terminar, a Rosa floresce na Cruz tal qual a Luz de Deus na Alma do Místico.
NOTAS
[1] In Resumen Histórico de la fundación, progresos, decadencia y total extincion de la Orden Militar de los Templarios (sem o nome do autor). Imprenta de Fuentenebro y Cía., Madrid, 1807. E também Pierre Boulle, L´étrange Croisade de l´empereur Fréderic II. Ed. Flammarion, Paris, 1968.
[2] Vd. Bernard Lewis, Os Assassinos, uma seita islâmica radical. Editora Terramar, Lda., Lisboa, Abril de 2003.
[3] Bernard Marillier, Templários, pp. 43-48. Hugin Editores, Ltda., Novembro de 1998.
[4] Chema Ferrer Cuñat, Los templarios y la secta de los Asessinos. In Codex Templi (Los misterios templarios a la luz de la Historia y de la Tradición). Santillana Ediciones Generales, S.L., Madrid, Abril 2006.
[5] Paul du Breuil, la Chevalerie et l´Orient. Éditions Guy Trédaniel, Paris, 1990.
[6] Apontamento referido por Bernard Marillier, ob. cit., retirado da obra de J.-C. Frère, L´Ordre des Assassins, C.A.L./Grasset, 1973.
[7] A Regra Secreta dos Templários. O Livro de Baptismo de Fogo.
Introdução de José Medeiros. Apêndice de Dr. Carlos Ratzin. Zéfiro –
Edições e Actividades Culturais, Unipessoal Lda., 1.ª edição 13 de
Outubro de 2006.
[8] Charles d´Artefeuil, Histoire héroique et universelle de la noblesse de Provence. Avignon, 1757-1786.
[9] Aldo Bonfiglio, Storia della Massoneria in Sicília dal 1750 al 1800. In Homnis Dignitate, n.º 4, revista oficial da Gran Loggia Regolare d´Itália.
[10] Gérard de Séde, Os Templários estão entre nós, pág. 134. Edições Estúdios Cor, S.A.R.L., Lisboa, 1974.
[11] Raymond Oursel, Le Procès des Templiers, pp. 94-95. Paris, 1955.
[12] Mateo Bruguera, Historia General de la religiosa y militar Orden de los Caballeros del Temple desde su origen hasta su extinción, refundida por Francisco de A. Rierola y Masferrer. Imprenta de la Immaculada Concepción, Barcelona, 1888-1889.
[13] Viterbo, Elucidário. Ed. Civilização, vol. II, p. 588.
[14] Frei Bernardo da Costa, História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, p. 22. Coimbra, 1771.
[15] Vitor Manuel Adrião, A Ordem de Mariz – Portugal e o Futuro. Editorial Angelorum, Lda., Carcavelos, Maio de 2006.
[16] In Portugalia Monumenta Historica, Scriptores, 84.
[17] Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.
[18] Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Dinapress Livros, Lisboa, 2007.
[19] Augusto Vieira da Silva, Dispersos, vol. I. Biblioteca de Estudos Olisiponenses, Lisboa, 1968.
[20] Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.
[21] A Igreja Matriz da Golegã, in Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 32, Junho de 1943. E Jorge Segurado, Matriz da Golegã, precursora do «Manuelino». Alocução do autor na Câmara Municipal da Golegã, 27 de Junho de 1984.
[22] Reynold A. Nicholson, Os Místicos do Islã. Madras Editora Ltda., S. Paulo, 2003.
[23] La Chanson du Chevalier au Cygne et de Godofroid de Bouillon, 2 vols. Ed. Célestin Hippeau, Paris, 1874, 1877. Frédéric A.F.T., Baron de Reiffenberg, Le Chevalier au Cygne et Godefroid de Bouillon, 3 vols. Bruxelles, 1846-1859. Anwar Hatem, Les
Poèmes épiques des croisades: Genése, historicité, localisation. Essai
sur l´activité littéraire dans les colonies franques de Syrie au Moyen
Âge. Paris, 1932.
[24] Pierre Ponsoye, El Islam y el Grial. Ediciones de la Tradicion Unanime, José J. de Olañeta, Editor, Palma de Mallorca, 1984.
[25] José Garcia Domingues, Portugal e o Al-Andalus. Hugin-Editores, Lda., Lisboa, Outubro de 1997.
[26] Henrique José de Souza, Cagliostro e São Germano. Revista “Dhâranâ”, 28-9-1941, Rio de Janeiro.
[27] René Guénon, Aperçus sur l´Initiation. Paris, 1946.
[28] Robert Bonell, Dante o Grande Iniciado. Uma mensagem para os tempos futuros. Madras Editora Ltda., S. Paulo, 2006.
[29] Ary Vasconcelos, Os Noventa e Nove Nomes de Deus. Revista “Dhâranâ”, Ano XXVI, Outubro de 1951, Rio de Janeiro.
[30] Vitor Manuel Adrião, Firenze Insolita e Segreta. Éditons Jonglez, San Marco, Venezia, Maggio 2011.
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