Cais da Europa: ecos estrangeiros na Lisboa da Segunda Guerra Mundial
POR ENTRE A BRUMA DO CAIS DA EUROPA: ECOS ESTRANGEIROS NA LISBOA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
MARIA JOÃO CASTROToda esta gente parou aqui, onde começam as ondas do mar.
Milos Tsrnhanski
Em Julho de 1938, o Presidente da República, General Óscar Carmona (1869-1951), embarcava no Cais das Colunas para a primeira viagem de um chefe de Estado português às colónias ultramarinas de África e, no ano seguinte, em 1939, uma segunda jornada levava-o a completar o périplo africano das possessões além-mar. De forma a assinalar para a posteridade o acto histórico, foi decidido gravar na pedra uma mensagem do Presidente da República e outra do Presidente do Conselho:
"AQUI EMBARCOU O CHEFE DO ESTADO PARA A PRIMEIRA VIAGEM ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E ANGOLA. XI DE JULHO - XXX DE AGOSTO DE MCMXXXVIII COM A CERTEZA DE QUE FALA PELA MINHA VOZ PORTUGAL INTEIRO, PROCLAMO A UNIDADE INDESTRUTÍVEL E ETERNA DE PORTUGAL GENERAL CARMONA A SEGUNDA VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: CABO VERDE, MOÇAMBIQUE E ANGOLA. XVII DE JUNHO - XII DE SETEMBRO DE MCMXXXIX A VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS DO IMPÉRIO EM ÁFRICA ESTÁ NA MESMA DIRECTRIZ DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES E FINALIDADE, É MANIFESTAÇÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE PÔS DE PÉ O ACTO COLONIAL SALAZAR"
Contudo, o regresso ao Cais das Colunas do Presidente, a 12 de Setembro de 1939, simbolizou um novo tempo, visto que Carmona regressava a um continente enublado pelo início da Segunda Guerra Mundial que havia sido declarada a 1 de Setembro, apressando-se o governo de Oliveira Salazar (1889-1970), no dia seguinte, a anunciar a neutralidade portuguesa (1).
Em breve, Lisboa tornar-se-ia no cais da Europa, passando a figurar como rota dos estrangeiros que procuravam fugir dos campos beligerantes do Velho Continente e que tentavam, através das representações diplomáticas em solo lusitano, escapar ao conflito bélico (2). A capital portuguesa torna-se na “sala de espera” para numerosos refugiados que aguardavam o embarque para os E.U.A. e foi durante esse tempo efémero que se assistiu a uma transformação dos usos e costumes trazidos pelos estrangeiros em rota de passagem para novos destinos. Isso significou que Lisboa se tornou no centro das atenções mundiais e a única capital onde Aliados e potências do Eixo confluíam abertamente, vigiando-se mutuamente.
O que interessa referir no contexto proposto é que, distanciando-se dos comportamentos conservadores que o salazarismo ascético e a moral católica haviam imposto e que firmavam a ideia de pecado e pudor, a passagem de numerosos estrangeiros fugidos da Guerra alterou os hábitos de Lisboa e da sua população.
Se é verdade que Portugal recebera refugiados desde 1933, não é menos exacto que só depois do conflito mundial começar, em 1939, foi visível a instalação, em Lisboa, de uma população estrangeira que reformaria os hábitos da capital lusitana. Aos numerosos emigrantes, refugiados e exilados, em trânsito para a América, juntaram-se espiões, agentes “oficiosos” vindos da Alemanha nazi, ingleses e americanos, todos com alguma missão a cumprir e que introduziram novas práticas que cedo foram assimiladas e repetidas, quer num primeiro tempo, pela população lisboeta, quer depois, pela extensão aos arredores, onde muitas das famílias se instalariam, aguardando a partida para o exílio.
Os que aqui chegavam encontravam um país de contrastes, em muitos aspectos parado no tempo. À volta das principais avenidas, surgiam os bairros das lavadeiras e dos ardinas, ainda que fosse vista ao olhar estrangeiro como uma cidade-luz face à sombra que cobria a Europa.
Sobretudo a partir de Junho de 1940, e conforme os alemães e instalavam em Paris, Lisboa acendia as luzes da Grande Exposição do Mundo Português, inaugurando o evento com a pompa e circunstância que a sua neutralidade permitia. A pacata capital assiste, curiosa, à vinda de estrangeiros que, surpresos com a reluzente metrópole, não param de chegar às suas gares ferroviárias, marítimas e aéreas.
À estação do Rossio chegariam a maior parte dos estrangeiros a caminho dos hotéis que podiam pagar (3). Por seu lado, o porto de Lisboa assistiu a um movimento desusado, enchendo- se de navios de passageiros e mercadorias, num vai e vem de inusitadas partidas e chegadas. Os paquetes da Companhia Nacional de Navegação rivalizavam a ancoragem com outros de várias nacionalidades e uns tantos chegados das colónias ultramarinas para assistir às comemorações do Duplo Centenário, como se denota do artigo publicado na revista Mundo Gráfico de 30 de Janeiro de 1941 e intitulado “Gente sem lar”:
"A meio da tarde, no cais cheio de rumores, havia um movimento confuso e incessante de gente e preparativos derradeiros de abalada. Era uma multidão triste, com um ar apreensivo e resignado dos que partem forçados pelas contingências da sorte e deixam em qualquer lugar distante os restos de vidas desfeitas e pedaços da própria alma. As bagagens amontoadas no molhe, que os guindastes estavam a içar para os porões do navio fumegante, prestes a largar, eram destroços dessas existências amarguradas e falavam de dolorosas peregrinações pela Europa ensanguentada (…) O paquete ia largar e perdiam-se ao longe os ecos e remoinho de um silvo angustiado. Estava cheio de gente e viam-se nas amuradas, à luz magoada do crepúsculo, silhuetas tristes, rostos com expressões de amargura que contemplavam reconhecidos a cidade enamorada."
Nubar Gulbenkian (1896-1972), filho de Calouste Gulbenkian (1869-1955), que se encontrava em Lisboa na altura declararia acerca dos cais de Lisboa:
"Muitas famílias judias chegavam a Lisboa em Rolls Royces que eram depois abandonados nos cais por aqueles que tinham conseguido um visto e um bilhete para atravessar o Atlântico" (4).
Viajar por ar não era uma opção viável para a grande maioria dos estrangeiros. Os bilhetes eram caros e os lugares poucos: os aviões da Pan American e os hidroaviões Clipper transportavam não só passageiros mas grandes cargas de correio, uma parte lucrativa do negócio da Pan American (5) amarando em Cabo Ruivo. O aeródromo da Granja do Marquês, em Sintra, ligaria Lisboa às principais capitais europeias, como dá conta o relato de Josephine Baker (1906-1975) numa das sete vezes que veio a Portugal:
"Quando se abriu a carlinga estávamos em Portugal, em Sintra. Estava bom tempo. As pessoas sorriam. Já não era um cenário de guerra. Nas ruas, alguns jovens vestiam-se com capas negras todas rasgadas. Vinham, disseram-nos, de Coimbra" (6).
Com a abertura em Outubro de 1942 do aeroporto da Portela, o movimento aéreo foi transferido para a capital.
Os lisboetas assistiam com curiosidade às mudanças introduzidas pelos desconhecidos. Tirada da sua modorra secular, Lisboa torna-se trepidante e barulhenta. Os primeiros sinais de mudança foram expressos na revista de propaganda britânica Mundo Gráfico que, a par de reportagens sobre a Guerra, foi dando indícios sobre as transformações que a capital sofria: “Lisboa em guerra converteu-se na capital da moda, em todas as capas dos magazines femininos que desfilam agora nas ruas da cidade” (7).
Na cosmopolita praia do Estoril, e depois noutras estâncias balneares, a vida corria mais ligeira e a “má influência estrangeira” na moral dos portugueses preocupou os circuitos clericais. Contudo, a visão da efemeridade da vida, perante a Guerra, e a urgência de tudo relativizar, levaram a que os portugueses recebessem, grosso modo, os desvalidos da sorte, copiando as novidades e refrescando a mentalidade de muitos lusitanos que se apressaram a aderir às modas que viam desfilar nas ruas e nos cafés da capital, popularizando usos e costumes até aí inimagináveis.
Nos cafés da Baixa, nos halls dos hotéis, nas esplanadas, nos jardins, nas agências de viagens, nas companhias de navegação e nos consulados e embaixadas, os estrangeiros aguardavam notícias e partidas. Lisboa tornou-se uma importante plataforma de confronto ideológico, de troca de informações e de espionagem, onde a imprensa, o cinema e a rádio eram os meios privilegiados para aceder às notícias da guerra distante.
O escritor Alves Redol (1911-1969) é dos primeiros a evocar essa atmosfera, no seu romance O Cavalo Espantado:
"O relógio do Carmo insinuava as horas. Foi então, aí por 1939, que do outro lado da praça, e a pedido dos estrangeiros sem sol para os aquecer na vida, se puseram cadeiras no passeio (…) E as estrangeiras sentaram-se por ali (…), atando o tempo de ansiedade naquele trampolim que tanto podia levá-las mais depressa ao lar abandonado, como atirá-las para um exílio em terras americanas (…) Ficou ali uma montra de pernas e de coxas para todas as gulas lisboetas, sem pudores recalcados (8).
Começam a ver-se homens sem chapéu, e mulheres desenvoltas que deixam em casa as luvas e o chapéu. As lisboetas imitam as estrangeiras, sobretudo as que vinham de Paris: era normal chegar-se ao cabeleireiro e dizer “quero um cabelo à refugiada”, ou seja, um penteado curto. Copiam os vestidos de manga curta, andam sem meias, de pernas à mostra, com saias menos compridas, sentando-se nos cafés a fumar, enquanto os jornais estrangeiros circulam de mão em mão pelas esplanadas da Baixa pombalina.
Atentas a bem da nação, as autoridades, sempre que podem, tentam travar as modernices vindas do exterior mas em vão. A moda dos fatos de banho sem alças para os homens e das duas peças para as senhoras era uma afronta à moral vigente. Assim, o Ministério do Interior apressa-se a fixar a norma (9) que obriga o fato de banho das mulheres a incluir um saiote e o dos homens, uma camisa que cobrisse o tronco. As directivas são afixadas nas praias mas isso não impede que se gere confusão. É dessa situação que dá conta uma das personagens do romance de Suzanne Chantal (1908-?) "Deus não Dorme":
"Madeleine estava sentada diante do tocador havia mais de uma hora, vendo como estava queimada do sol: as costas já haviam sido bronzeadas, e as longas coxas, e os braços. Até o ventre estava doirado, entre o soutien de malha e a calça minúscula. Mas agora uma ordem da polícia proibia os maillots de duas peças: - Daqui a pouco vão-nos obrigar a tomar banho com calças, ligas e saias, como em 1900" (10).
A situação que Milos Tsrnhanski, diplomata jugoslavo, viveu encontrava-se bem fora de qualquer romance, sendo uma situação real: Tsrnhanski seria preso por atentar contra o pudor, juntamente com uma amiga que comprara um moderno fato de banho, na cosmopolita praia do Estoril:
"Antes da partida de Portugal, travei conhecimento com a polícia portuguesa. Isto é, quando estava a tomar banho de mar (…) aproximaram-se dois civis com chapéu de coco, e medem-nos os calções de banho e perguntam porque estou em tronco nu. Isto é proibido. Ambos para a polícia. Visto que a jovem inglesa não sabe português e eles a apalpam, ela senta-se na areia, chorando e gritando. Eu protesto (…) e vou para a polícia onde querem que pague uma multa no valor de 3000 escudos, por ofensa moral. Então regateio, e insisto no direito internacional. Finalmente passo para as mãos de um funcionário superior, que se ri e diz que nós, estrangeiros, nos banhos ofendemos a moral e o pudor das pessoas que passam, portugueses que não tomam banho. Então pergunto por que razão tais fatos de banho se vendem no Estoril?" (11)
Até o secretário do duque de Windsor, foi multado por o seu fato de banho não corresponder às normas portuguesas.
Mas não era só a praia o cenário onde as alterações de costumes se faziam sentir. Em 1940, o jornalista francês Eugene Tillinger (1903-1979) escrevia no Daily Mirror:
"As mulheres portuguesas estão a usar cada vez mais maquilhagem e que, é pior, a copiar as modas em chapéus e sapatos usados pelas estrangeiras. Ainda por cima, começam a fumar em público. Um senhor português, casado há quatro anos e pai de quatro filhos, apaixonou-se por Asta N., uma beldade holandesa com dezanove anos. Abandonou a mulher e os filhos e pediu o divórcio. O que aconteceu a seguir? A rapariga holandesa foi presa e acusada de comportamento imoral. Aguarda agora na prisão de Caxias um visto para poder regressar ao seu país (12).
· Artistas entre Lisboa e o Novo Mundo
No período inicial do movimento de refugiados – desde o verão de 1940 até final da primavera de 1941 – um conjunto de numerosos artistas vieram para Lisboa mas procuraram o anonimato, mantendo um perfil discreto. Entravam a bordo dos navios como refugiados e, do outro lado do Atlântico, emergiam como celebridades” (13).
A Lisboa de então habitua-se a cruzar-se com o rei Carol II da Roménia (1893-1953) na Bertrand do Chiado, ou a testemunhar o passeio da princesa Helena, tia do rei da Jugoslávia. Os duques de Windsor fixam-se temporariamente no Estoril e, a par da aristocracia, as vedetas mundiais chegam a Lisboa, imaterializadas em sombra e luz.
Na capital portuguesa, Man Ray (1890-1976) passou o tempo por entre os cafés, os museus, a nadar nas piscinas e a ouvir música em night-clubs. Pouco depois embarcava no transatlântico Excambion, rumo a Nova Iorque, tendo por companhia Salvador Dalí (1904- 1989) e o realizador René Clair (1898-1981). Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) alojou- se no Hotel Atlântico no Estoril, deu uma conferência na École Française e outra numa escola de engenharia. Em seguida embarcou no Sidoney rumo a nova Iorque, onde teve por companheiro de camarote o realizador francês Jean Renoir (1894-1979), que havia chegado a Lisboa vindo do norte de África.
Na primavera de 1941, a coleccionadora de arte Peggy Guggenheim (1898-1979), o seu ex-marido Laurence Vail (1891-1968), Max Ernst (1891-1976) e um alargado grupo de familiares e amigos gozaram de algumas semanas em Lisboa, enquanto esperava por lugar num voo Clipper. Peggy “destacava-se por entre a clientela do Café Leão d´Ouro, ao lado da estação do Rossio, devido às vestes e jóias garridas que fazia questão de usar” (14). De seguida, mudou- se para um hotel próximo do mar no Monte Estoril, onde, segundo relata o seguinte episódio:
"Certa noite, em Cascais fui nadar nua. Estava bastante escuro mas o Max (Ernst) ficou apavorado. Os portugueses são católicos e nós éramos constantemente repreendidos pela polícia por usarmos fatos de banho que eles consideravam indecentes (…) e por isso multavam-nos" (15).
Peggy e o seu grupo visitaram Sintra onde Max se deixou deslumbrar pela luz, admitindo posteriormente que esta chegou a influenciar algumas das suas obras posteriores (16). A 13 de Julho de 1941 Peggy e a sua trupe voaram para Nova Iorque, onde a sua colecção de arte moderna a aguardava, depois de ter sido enviada num paquete três meses antes. Poucos meses antes (Maio de 1941), haviam chegado a Lisboa Marc Chagall (1887-1985) vindo de França onde a Gestapo havia prendido o pintor. Chegado de comboio à gare do Rossio, Chagall permaneceu na cidade até lhe chegar o bilhete para o transatlântico que o levaria ao Novo Mundo. Dessa passagem conturbada, o artista diria:
"Aqui no porto de Lisboa, perto do navio, descobri centenas dos meus judeus, de malas e bagagens. Nunca vivenciei acontecimento tão triste como quando um autor e os seus heróis embarcam no mesmo navio" (17).
A 10 de Dezembro de 1941, três dias após Pearl Harbour, a American Export Lines cancelou a partida de um navio pronto a deixar o porto de Nova Iorque com destino a Lisboa e anunciou que todas as futuras viagens estavam canceladas. A diplomacia norte-americana creditada em Portugal aconselhou as empresas americanas em Portugal a fazerem regressar os seus funcionários no Excambion, o último navio americano a partir do cais de Lisboa. Nem os rumores dos U-boot á espera à saída do estuário do Tejo impediram o navio de chegar incólume ao outro lado do Atlântico mas enquanto a guerra durou, só os transatlânticos portugueses, espanhóis e de algumas outras nações arriscaram a travessia atlântica.
No verão de 1942 chegou Cecil Beaton (1904-1980), o fotógrafo envolvido no trabalho de guerra para o Ministério da Informação. Instalado no Hotel Aviz onde a falta de carvão fazia desligar as luzes a partir das dez da noite, aproveitou para trocar correspondência a amigos, nomeadamente Gertrude Stein (1874-1946) que continuava a viver em países ocupados. Numa viagem ao Bairro Alto, Beaton registou as “trepadeiras de campainhas e a roupa a secar” e numa visita a Sintra escreveu sobre as suas construções “ao estilo da Cinderela” (18) mas a sua missão havia de a encontrar quando Londres, num esforço para aumentar os sentimentos pró- britânicos do país, lhe pediu para fotografar Salazar e Carmona.
Em 1943 a Alemanha avançava em todas as frentes e sabia-se que estava planeado um ataque a Portugal (19). O ambiente da capital portuguesa transformar-se-ia com a possibilidade da ofensiva alemã, o que fez com que Salazar organizasse uma defesa da cidade de Lisboa, através da Legião Portuguesa. Inicia-se um conjunto de exercícios de defesa civil e de protecção de edifícios e monumentos com tapumes, os feixes de luz varrem os céus, os tesouros da arte portuguesa são encaixotados e escondidos. Os vidros são protegidos com papéis para evitar estilhaços em caso de bombardeamento, os monumentos protegidos por sacas de areia, o Terreiro do Paço revestido de rolos de arame farpado, são construídos abrigos subterrâneos e, apesar destas alterações terem tido um período de vida curto não deixaram de modificar a fisionomia da cidade.
· Sob o olhar dos outros
Uma das primeiras referências a aparecer na imprensa estrangeira foi o artigo de Eugene Tillinger, publicado no jornal Aufbau, a 10 de Dezembro de 1940 e onde se lê:
"Para quem conhece a cidade de antigamente, é praticamente inconcebível a transformação que sofreu em tão curto espaço de tempo. A animação, que aqui reina, aumenta de dia para dia. Chegam cada vez mais emigrantes, de França, e dos territórios ocupados pelos alemães. Na Praça do Rossio, no centro da cidade, já quase não se ouve uma palavra de português. Lisboa está esgotada: os hotéis superlotados, os cafés e restaurantes a abarrotar. Há muitos anos que não acontecia nada assim. A cidade renasce…" (20).
A reportagem que se fez sobre Lisboa, em 1940, "In Lissabon gestrandet", da autoria de Erika Mann (1905-1969) debruça-se sobre o ambiente vivido nos cafés da cidade:
"O café estava a abarrotar de gente (…) o ar cheio de fumarada e pesado hálito de tantas pessoas… A maioria dos refugiados vestia os mesmos trajes com os quais tinha abandonado a sua terra ou o país que temporariamente lhes tinha concedido asilo. As roupas estavam velhas e gastas, sujas e muitas vezes esfarrapadas. Havia no ar um cheiro de trapos sujos (…) Era quase impossível respirar neste terrível pequeno café “internacional” em Lisboa (21).
Neste testemunho da passagem por Lisboa com o seu pai Thomas Mann (1875-1955) destaca-se ainda a passagem:
"Lisboa, o único porto livre e neutral da Europa, transformou-se em ponto de encontro e sala de espera de todos aqueles que fogem de Hitler. De facto, não foi nem uma exposição universal, nem um festival o que atraiu tantas pessoas para estas ruas. São exilados, apátridas, aqueles que aqui se concentram. O seu número oscila, mas nunca deixam de ser milhares: sem bagagem, sem dinheiro, muitas vezes sem papéis, é assim que os refugiados aqui chegam. E que coisa podem fazer? Apenas uma: ficar cá enquanto tiverem autorização para isso. Apenas esperar. E por quê? Pelo navio salvador que os levará daqui, para qualquer lugar, desde que seja longe, o mais longe possível do inimigo, que lhes ia no encalço para onde quer que fossem. Ele tinha-os perseguido por toda a Europa, e agora esperavam pelo navio salvador" (22).
Ainda em 1940, o escritor Hermann Grab (1903-1949) escrevia no seu Ruhe auf der Flucht:
"Entretanto o sol iluminava as fachadas limpas das casas e o verde da Avenida da Liberdade. Um dos cafés tinha mesas com toalhas brancas, numa zona da faixa central que dividia a avenida, onde as pessoas se sentavam à sombra de árvores altas, comendo bolas-de-berlim cobertas de calda de açúcar e acompanhadas de chá frio" (…)
E mais adiante refere:
"A pensão encheu-se. Cada vez mais amigos vinham agora para Lisboa. Tinham atravessado os Pirenéus a pé (…) Muitas vezes a aventura não resultava, e eles tentavam uma segunda ou terceira vez, ou desistiam definitivamente. Seja como for, a pensão estava a abarrotar e o senhor Carvalho, o proprietário, andava para lá e para cá no corredor, entre a cozinha e o pequeno escritório, as mãos cruzadas atrás das costas, talvez fazendo contas em silêncio; olhava para os estrangeiros, sabia que entre as muitas línguas dominavam o alemão e o polaco, que nunca imaginara ter de voltar a abrir o andar de cima e que o curso da história do mundo era uma verdadeira surpresa.
A sala de jantar nunca tinha estado tão cheia. Os estrangeiros impacientavam-se quando tinham de esperar pela comida, mas o senhor Carvalho limitava-se a encolher os ombros. Se o serviço sempre tinha sido feito com dois criados, por que razão é que agora havia de ser diferente? E também nem lhe passava pela cabeça mudar o menu. Ele próprio se deliciava com o molho de cebolada e o azeite, o peixe e também o assado eram cozinhados como já a mãe em Coimbra e até a avó em Pombal os faziam, e assim teriam de os comer também os estrangeiros, que ninguém os tinha mandado vir" (23).
Na revista de propaganda alemã Sinal podia ler-se no número de 1 de Abril de 1941:
"Os táxis da capital não se distinguem de modo nenhum dos carros privados. São elegantes, limpos, bem mantidos e possuem quase sempre um rádio. Os condutores conduzem de forma endiabrada com grande barulho de buzinas, mas circulam com à-vontade em Lisboa. Por vezes, em pontos perigosos ficamos tentados a gritar “devagar!”.
Igual queixa revela Suzanne Chantal no seu romance Deus não Dorme:
"O táxi arrancou violentamente, deu uma grande volta no pátio da estação, depois lançou-se numa rua que descia, vertiginosamente. Liouba, que era medrosa, sentiu o coração falhar: - Não vá tão depressa – gritou. – Tenho muito tempo… O chauffeur voltou-se a sorrir, disse ainda algumas palavras na sua misteriosa língua, e acelerou" (24).
O escritor húngaro Arthur Koestler (1905-1983) chegou a Lisboa de navio em Setembro de 1940, tendo-se alojado no Hotel Francfort, no Rossio e depois na Pensão Leiriense. Foi a partir do seu olhar sobre Lisboa que Koestler empreendeu a pesquisa para o seu livro Chegada e Partida, que viria o prelo em 1943. Sobre a sua passagem por Lisboa, o escritor escreveria:
"As ruas tinham-se transformado em largas alamedas, flanqueadas de ambos os lados por palmeiras ainda mais imponentes e por blocos de casas brancos, ortogonais, que reflectiam a luz forte e ofuscante. As lojas ostentavam uma elegância de província e pareciam concentrar-se principalmente em camisas de seda para homem e "panamás". Estranhos carros eléctricos, com buzinas como as dos automóveis, deslizavam sobre carris que o sol quase derretia. Ele chegou a uma grande praça aberta com uma fonte no meio e cafés a toda a volta; o passeio estava repleto de mesas e cadeiras de verga e protegido do sol por toldos claros. A maior parte das mesas era ocupada por homens, habitantes de um país neutro, de cabelos escuros, gravatas vistosas e ombros enchumaçados. Beberricavam café em chávenas minúsculas, fumavam cigarros ou então, fixando o horizonte em silêncio, deixavam que o sol os iluminasse, como lagartixas sobre uma pedra em dia de festa. Algumas das mesas estavam ocupadas por grupos mistos, mulheres e homens, sem dúvida estrangeiros, exilados de passagem, vindos de países ocupados pelo inimigo. Falavam em voz baixa, com pequenos tiques nervosos no rosto, e juntavam as cabeças por cima das mesas como um bando de gralhas negras em dia de trovoada" (25).
Karl O. Paetel (1906-1975), intelectual e activista alemão, escreveu na sua autobiografia, Reise ohne Uhrzeit Autobiographie:
"Chegámos à Praça do Rossio, o centro de Lisboa. Magnífico! Só quem vem de um país numa escuridão total, onde à noite é preciso andar pelas ruas a tactear o caminho, pode apreciar o que viemos encontrar quando às duas da madrugada sentimos jorrar sobre nós aquela iluminação mágica das luzes na praça (…). Lisboa era uma beleza, se nos ficássemos pela Avenida e prescindíssemos de entrar pelas ruas escuras à esquerda e à direita, onde, à porta de casas miseráveis, homens e mulheres preparavam as parcas refeições em fogareiros: slums, como só mais tarde iria ver em Harlem/Nova Iorque. Depois do passeio da manhã - semanas a fio sem resultados - até ao majestoso edifício dos Correios que ficava no fim da Avenida, sentávamo-nos num dos cafés, onde, durante horas diante de uma "bica", íamos observando, meio divertidos, os informadores das potências em guerra a fazerem sinais uns aos outros. Na altura, Portugal albergava provavelmente a maior parte dos espiões ou dos agentes "oficiosos" alemães nazis, ingleses e americanos, todos com alguma missão a cumprir. Ao contrário do que acontecia em Paris, Praga ou Estocolmo, não havia aqui nenhuma ligação entre os emigrantes. Encontrávamo-nos às vezes por acaso, mas de resto estávamos entregues a nós próprios (26).
Por sua vez Hans Sahl (1902-1993) destacaria na sua estada em Lisboa:
"Sentíamo-nos em liberdade… Havia que comer (…) abraços em tabernas cheias de fumo, junto ao porto, a amigos que também tinham conseguido escapar. Brindava-se à América e todos combinavam ir juntos, assim que chegassem, ver o novo filme de Chaplin, O Grande Ditador, que acabava de estrear em Nova Iorque. Mas a sensação de segurança era enganadora. Enquanto não tivéssemos um visto americano, estávamos na Europa, e Hitler já tinha ocupado quase todo o continente. Por que razão haveria de poupar Portugal? Não havia tempo a perder. Era preciso garantir passagem num navio, antes que fosse tarde de mais (27).
O escritor alemão Alfred Döblin (1878-1957) também haveria de passar por Lisboa, deixando registado nas suas memórias Viagem ao Destino, a seguinte narrativa sobre a Lisboa que encontrara:
"Eram duas da madrugada. Passámos ruas brilhantemente iluminadas, onde bandos de gente jovial se moviam de um lado para o outro. Foi assim com música e risos que Lisboa nos acolheu.
Não esqueceremos o abalo que isso nos deu. Em que estado tormentoso se debatia, não longe daqui, a grande França – eram cidades em trevas forçadas pela guerra, a região Norte infestada de conquistadores. Passava- se fome, e aguardavam-se as disposições do vencedor. Sofria-se, a aflição era geral. Milhões de homens aprisionados, outros tantos tomados de pavor, dezenas de milhares levados à morte – e aqui, brilhava a luz. Fruía-se a paz. Não conseguíamos sentir alegria. Só pensávamos no que ficava para trás (…) Os Correios no Terreiro da Paço era o edifício que havíamos de passar a visitar diariamente, e em torno do qual giravam, a toda a hora os nossos pensamentos. A nós interessavam-nos apenas os guichés da posta-restante. Eram recuados, ficavam numa galeria lateral, empurrados para a parede como nós próprios. Mas facilmente se localizavam, tanta era a gente que os procurava. Havia-os aos montes, aqui postados em filas, refugiados, naufragados, todos eles inquirindo de cartas e telegramas. Eram, na sua maioria, homens e mulheres bem vestidos, trazendo nos rostos e nos movimentos os sinais do seu destino: a inquietação acabrunhada, atenção. Uns perguntavam já apáticos, e apáticos abalavam. Estão cansados de perguntar, e não lhes dão resposta. Outros recebem uma carta, e logo uns quantos se precipitam, a querer explicações (…) a Europa expiava os seus pecados e omissões enquanto isso, nós, refugiados, pertencentes a essa Europa, ali estávamos em Lisboa, à espera da bóia de salvação que alguém nos lançaria do outro lado do oceano".
Dölin acabou por reparar nos alfacinhas, escrevendo sobre eles as seguintes palavras:
"Bem, os lisboetas empenham-se jovialmente na obra de gerir o burgo. Fazem o que podem, e não é pouco. Quando os automóveis correm à desfilada, quando os eléctricos se lançam em choradeira e todo aquele estrondear assume feição tão esplendorosa que o condutor se vê instado a acompanhar a ocorrência com badaladas retumbantes de sineta – nessa altura os lisboetas procuram refúgio no canto, no grito, nos instrumentos musicais. Dia após dia, cruzávamo-nos com músicos, cantores e cantoras joviais, um pouco por toda a cidade. Durante uma semana inteira, chegaram-nos aos ouvidos ecos de música frenética de baile, das bandas do mercado. E quem não tenha ouvido os apregoadores de jornais às sete horas da manhã, não sabe do que a voz humana é capaz".
As palavras de Dölin referem igualmente a ambiência citadina:
"Lisboa é uma grande fábrica de produção de barulho. À cabeça da série estão os eléctricos, que circulam em fileiras, quase pegados uns aos outros, com ou sem passageiros. Seguem aos solavancos calhas fora, matraqueiam sobre carris até fazerem tinir os vidros das janelas. O condutor tem menos uma campainha, o mais certo duas, à disposição. Um motorista português consegue fazê-las ressoar como três ao tocar – e se toca, é um mote contínuo, uma alegria sem igual. É um condutor de campainhas.
O seu carro tem na dianteira uma estrutura vigorosa de protecção, em forma de pá. Quando o veículo assim aparelhado dobra a esquina, tem-se a impressão de que está apostado em ceifar transeuntes".
Sobre a partida de Lisboa, Alfred Dölin poetizaria a despedida de Lisboa:
"O navio levantou âncora na escuridão da noite. Lentamente foi virado e rebocado Tejo abaixo. A Exposição do Centenário resplandecia como um conto de fadas, à nossa passagem. A sua mágica luminosidade foi a última imagem que tivemos da Europa envolta em luto" (28).
O diplomata Milos Tsrnhanski, instalado primeiro em Sintra e depois no Estoril, no Hotel Inglaterra, deixou expresso na sua autobiografia Embahade:
"A maioria da gente no Estoril são judeus, que fogem aos alemães e abandonam a Europa. São ricos mas pesados e medrosos (…) Tais casais andam pelo parque, cansados, e sentem-se em silêncio no hotel" (29).
Também o relato de Yvette Davidoff (1921-2008), que veio para Portugal acabando por ficar a viver no país, é elucidativo sobre a maneira como os estrangeiros viam os lisboetas de então:
"Entrámos num comboio em Madrid mas já não tínhamos mais dinheiro para pagar as passagens para Lisboa. Quando o revisor veio, a minha mãe perguntou-lhe se ele nos podia adiantar o dinheiro para os bilhetes. Precavendo-se, a minha mãe ofereceu-lhe o seu anel. O revisor, um homem jovem, na casa dos trinta, disse: - Não, não precisa de me dar nada. Vou pagar os bilhetes das senhoras e também o jantar no restaurante do comboio. Dou-lhes o meu nome e a minha morada e, na semana que vem, as senhoras poderão restituir-me o dinheiro em Lisboa! – Nunca nos tinha acontecido nada assim. À noite, quando chegámos a Lisboa, ele ainda nos levou a um hotel, dizendo-nos que poderíamos descontar um cheque nos próximos dias e pagar então o quarto. Este foi o nosso primeiro contacto com os portugueses, que nunca esquecerei" (30).
Mas talvez a declaração mais poética e nostálgica em relação à ambiência lisboeta tenha sido a deixada por Antoine de Saint-Exupéry, aquando da sua passagem pela cidade em Dezembro de 1940, conforme refere na sua Carta a um Refém:
"Lisboa apareceu-me como uma espécie de paraíso claro e triste (…) Lisboa, que edificara a mais deslumbrante exposição que já houve no Mundo, sorria com um sorriso um tanto pálido (…), Lisboa em festa desafiava a Europa. Eu errava, pois, todas as noites, com melancolia, por entre os êxitos daquela exposição de um gosto extremo, em que tudo roçava a perfeição. E achava Lisboa, sob o seu sorriso, mais triste que as minhas cidades apagadas" (31).
Contudo, para outros autores estrangeiros, a Lisboa da Segunda Guerra Mundial mostrar-se-ia uma cidade de luz face à escuridão que sombreava a Europa beligerante. É isso que refere o relato de Fernando Fragoso para a revista Vida Mundial Ilustrada em 1942:
"Sobre o asfalto da Avenida, naquela meia-luz indecisa da transição da tarde para a noite, corriam estranhos automóveis, com os faróis e os niquelados pintados de azul, e números de matrículas de países onde o blackout se tornara uma banalidade. Lisboa, sentimental e inquieta, olhava com ternura essas estranhas equipagens, que deslizavam, na sombra, como fantasmas que buscavam a sua forma, ajoujados de malas, colchões e mobília – uma improvisação de uma fuga, na ânsia da libertação do pesadelo da guerra. Às janelas dos carros, afloravam rostos empalidecidos de mulheres e crianças, com marcas evidentes de noites mal dormidas e das provocações de uma caminhada de léguas" (32).
No início da Guerra, haviam sido guardadas para sempre, naquela entrada simbólica do Cais das Colunas, as memórias das duas primeiras viagens de um Chefe de Estado português às províncias ultramarinas, em 1938 e 1939, permanecendo como símbolo de um país de costas voltadas para a Europa e de rosto a olhar o Atlântico.
No xadrez dos olhares cruzados, no fim da Guerra, menos de mil refugiados restavam em Lisboa, reflectindo o êxito da política portuguesa de país de trânsito e não de exílio. A capital havia sido um corredor para outros destinos, uma sala de espera iluminada pela neutralidade salazarista, o porto do Velho Continente para o Novo Mundo, sobrevivendo por entre a partida desejada e as memórias que deixava para trás, ecos tornados longínquos tal como mostra a última imagem do filme Casablanca, de Michael Curtiz (1886-1962), de 1942, quando o avião levanta voo sobre o nevoeiro marroquino como destino à bruma do cais da Europa…
BIBLIOGRAFIA
· FRAGOSO, Fernando, Hollywood em Lisboa, Tip. Soc. Astória, Lisboa, 1942
· LOCHERY, Neil, Lisboa, Lisboa 1939-1945, A Guerra nas Sombras da Cidade da Luz,
Editorial Presença, Lisboa, 2012
· LOCHERY, Neil, Lisboa, Lisboa, A Cidade Vista de Fora, 1933-1974, Editorial Presença, Lisboa, 2013
· RAMALHO, Margarida de Magalhães, Lisboa, uma Cidade em Tempo de Guerra,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2012
· WEBBER, Ronald, Passagem para Lisboa, A vida boémia e clandestina dos refugiados da Europa nazi, Clube do Autor, Lisboa, 2012
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NOTAS
1 Os jornais do dia 2.9.1939 publicam a nota oficiosa do Governo em que este declara a neutralidade de Portugal no conflito.
2 Em Março de 1939, o Estado Português havia assinado um Tratado de Amizade e Não Agressão (conhecido como Pacto Ibérico) com a Espanha nacionalista, representada pela Junta de Burgos e pelo Nuevo Estado dirigido por Francisco Franco (1892-1975), recusando o convite do embaixador italiano, em Abril do mesmo ano, para aderir ao Pacto Anti-Komintem, aliança da Alemanha, Itália e Japão contra a ameaça comunista. Em Agosto de 1939, a Grã-Bretanha assina um acordo de cooperação militar com Portugal, aceitando apoiar directamente o esforço de rearmamento e modernização das Forças Armadas Portuguesas. Todavia, o acordo só começaria a ser cumprido a partir de Setembro de 1943.
2 Em Março de 1939, o Estado Português havia assinado um Tratado de Amizade e Não Agressão (conhecido como Pacto Ibérico) com a Espanha nacionalista, representada pela Junta de Burgos e pelo Nuevo Estado dirigido por Francisco Franco (1892-1975), recusando o convite do embaixador italiano, em Abril do mesmo ano, para aderir ao Pacto Anti-Komintem, aliança da Alemanha, Itália e Japão contra a ameaça comunista. Em Agosto de 1939, a Grã-Bretanha assina um acordo de cooperação militar com Portugal, aceitando apoiar directamente o esforço de rearmamento e modernização das Forças Armadas Portuguesas. Todavia, o acordo só começaria a ser cumprido a partir de Setembro de 1943.
3 O Hotel Aviz, inaugurado em 1933, por iniciativa do empresário inglês Joseph Ruggeroni era então um dos mais exclusivos e luxuosos hotéis de Portugal e torna-se o poiso predilecto da aristocracia europeia. Estabelecimento instalado no antigo palacete Silva Graça, edifício mandado construir em 1904 por José Joaquim da Silva Graça, director do jornal O Século, e convertido em unidade hoteleira pelo arquitecto Vasco Regaleira, que lhe conferiu vincados traços de portugalidade.
4 Nubar Gulbenkian, Pantaraxia: An Autobiography of Nubar Gulbenkian, Hutehinson, Londres, 1965, p. 186
5 O voo inaugural para Lisboa que inaugurou o porto de amaragem no Tejo foi realizado no final de Março de 1939 e o primeiro voo transatlântico da Pan American com bilhetes pagos por clientes realizou-se em Junho de 1939.
6 João Moreira dos Santos, Josephine Baker em Portugal, Casa Sassetti, Cascais, 2011, 38
7 “Lisboa capital da moda”, Mundo Gráfico, 15.10.1940, citado por Margarida de Magalhães Ramalho, Lisboa uma cidade em tempo de guerra, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2012, p. 44
8 Alves Redol, O Cavalo Espantado, Publicações Europa-América, Lisboa, 1972, p. 77
9 “Algumas normas para uso do fato de banho”, Ministério do Interior, Gabinete do Ministro, Maço 518, Cx. 76, 1941
10 Suzanne Chantal, Deus não Dorme, Antº Maria Pereira, Lisboa, 1944, p. 136
11 Citado por Jorge P. Santos Carvalho, “Lisboa e Estoril no tempo da II Guerra”, in Revista de História, N.º 105, Fevereiro de 1988, p. 24
12 Citado por Ana Vicente Arcádia, Notícia de uma família anglo-portuguesa, Gótica, Lisboa, 2006, p. 180
14 Neil Lochery, Lisboa, A Guerra nas Sombras da Cidade da Luz, 1939-1945, Editorial Presença, Lisboa, 2012, p. 117
15 Guggenheim, Peggy, Out of This Century, André Deutsch, Londres, 2005, p. 242
16 Ver Neil Lochery, Obra Cit., p. 117
17 Jackie Wullschlager, Chagall: Love and Exile, Penguin, Londres, 2008, p. 394
18 Cecil Beaton The Years Between: Diaries 1939-44, Londres, 1965, pp. 198-199
19 Sabe-se que esteve planeado um ataque, conhecido com o nome de código de Operação Félix. Planeado pelo Alto-Comando da Alemanha Nazi, a Operação Félix previa, entre outras acções, atacar os portos de Lisboa e Setúbal, evitando a hipótese de Inglaterra usar os portos de águas profundas para envio de reforços. Só a partir de Setembro de 1943, e após a assinatura do acordo da cedência de bases estratégicas nos Açores, a situação se alteraria com a chegada de maciças quantidades de material de guerra moderno-blindados, artilharia anti-aérea e anti-carro, sistemas anti-submarino, e esquadrilhas de aviões de caça modernos.
20 Palavras de Apud incluídas no artigo “Fugindo de Hitler e ao holocausto”, Refugiados em Portugal entre 1933- 1945, Goethe-Institut, Lisboa, 1994, p. 23
21 Citado por Margarida de Magalhães Ramalho, Obra Cit., p. 24
22 Idem, p. 25
23 Ibidem, pp. 25-26
24 Suzanne Chantal, Obra Cit., p. 11
25 Margarida de Magalhães Ramalho, Obra Cit., p. 26
26 Idem, p. 21
27 Ibidem, p. 27
28 Alfred Döblin, Viagem ao Destino, Asa, Lisboa, 1997, pp. 231-240
29 Citado por Jorge P. Santos Carvalho, “Lisboa e Estoril no tempo da II Guerra”, in Revista de História, N.º 105, Fevereiro de 1988, p. 22
30 Catálogo Lisboa 1933-1945, Ponto de Refúgio na orla da Europa, Goethe-Institut, Lisboa, 1997, s.p.
31 Antoine de Saint-Exupéry, Carta a um Refém, Grifo, Lisboa, 1995, pp. 7-10

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